sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mala Branca existe sim e até Telê Santana já recebeu!

O treinador Telê Santana que fez
história na Seleção Brasileira
recebeu, junto com o plantel do
Atlético, a "mala branca" da
diretoria do América para
derrotarem o Cruzeiro no clássico
da última rodada do Estadual de
1971. O resultado deu o título
estadual ao América.

Após o empate suado do ex-líder Fluminense contra o ameaçado de rebaixamento, Goiás, no domingo passado, retornou a polêmica do uso da “mala branca”.

Teriam Corinthians e Cruzeiro, interessados diretos no resultado do jogo, oferecido uma premiação extra para os jogadores goianos se empenharem ao máximo para tirar pontos e a liderança do Fluminense?

A prática do estímulo extra é antiga em nosso futebol, mas ainda é tratada como um tabu. É a atrasada cultura brasileira que insiste em aliar a imagem e o uso do dinheiro à imoralidade.

A “mala branca” é quase comparada a um escândalo de corrupção mesmo não sendo, pois sequer é ilegal. E é tratada com tanta delicadeza que teve até o seu rótulo alterado, pois antes era chamada de “mala preta”

O uso da mala branca já foi admitido e comprovado no Campeonato Mineiro de 1971. Na penúltima rodada daquele Estadual, que seguia o sistema de pontos corridos com turno e returno, como é o atual Campeonato Brasileiro, o América era líder com um ponto a frente do Cruzeiro. As duas equipes disputavam a liderança, rodada a rodada,
desde o início do certame. O Atlético não fazia boa campanha e já estava fora da disputa sem chances de chegar ao titulo.

O América recebeu o Fluminense, de Araguari, num sábado(19 de junho), no Mineirão, enquanto o Cruzeiro enfrentaria o Tupi, de Juiz de Fora, no domingo, também no estádio. O time de Araguari estava ameaçado de rebaixamento e, teoricamente, seria um jogo fácil para o América que, com uma vitória garantiria o título antecipado.

Antes da partida o presidente do Fluminense, de Araguari, revelou que era torcedor do Cruzeiro e que estava pronto para ajudar o seu time do coração naquilo que fosse preciso (1). Ele surpreendeu os jornalistas ao exibir um cheque no valor de doze mil cruzeiros que, segundo ele, foi entregue pelo Cruzeiro, para servir de estímulo aos seus jogadores. Uma autêntica mala branca.

O Fluminense jogou com muita garra e segurou o América arrancando um empate. No domingo(20 de junho), o Cruzeiro goleou o Tupi por 4 a 0 com um show de Tostão e alcançou o América na liderança.

Os resultados transformaram os jogos da última rodada entre América e Uberlândia, no sábado, e Cruzeiro e Atlético, no domingo, numa decisão.

As declarações do presidente do Fluminense provocaram uma revolta junto aos dirigentes do América. Acusaram o Cruzeiro e o Fluminense de prática de corrupção. Ameaçaram denunciar o fato ao Conselho de Futebol e Desporto-CFD.

O Cruzeiro de Piazza (foto) e o América brigaram
rodada a rodada pelo título mineiro em 1971. O
estadual terminou de forma polêmica e decidido
com o estímulo da "mala branca"
No entanto, o mesmo CFD num caso em que foi levado pelo Botafogo, do Rio de Janeiro, no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970, quando os jogadores do Santos receberam uma mala branca do Atlético, que estava diretamente interessado no resultado da partida, inocentou o clube mineiro.

Naquela ocasião, o órgão alegou que não havia lei que impedisse o favorecimento de dinheiro como estímulo e só haveria apuração do fato se ele fosse ao contrário, no caso de suborno (2).

Diante desta situação, o ex-vice presidente do América, Hélio Brasil de Miranda, iniciou um movimento, durante a semana, junto a torcedores e sócios do clube, para arrecadar 50 mil cruzeiros (3).

O dinheiro iria servir para pagar aos jogadores do Atlético por uma vitória sobre o Cruzeiro. Um prêmio em dinheiro, em especial, seria dado ao atacante Dario, por cada gol que marcasse.

Os jogadores e a diretoria do Atlético foram procurados pela imprensa. A diretoria do clube dizia não ter conhecimento de que seus jogadores haviam sido procurados pela diretoria do América e que o time entraria em campo para vencer o seu maior rival sem a necessidade de um estímulo extra.

A direção alvinegra ainda provocou o América dizendo que quem dá dinheiro para estimular uma vitória, também pode cometer a prática de suborno (4). O atacante Dario manteve a sua peculiar espirituosidade dizendo que não era milionário e que se recebesse dinheiro por cada gol que marcasse colocaria no bolso sem o menor constrangimento (5).

No sábado(26 de junho), o América fez o seu papel e venceu o Uberlândia por 3 a 2. Bastava torcer para que a mala branca desse resultado no clássico de domingo. Uma vitória ou um simples empate daria o primeiro título ao clube na era Mineirão.

O clássico de 27 de junho, como não poderia deixar de ser, foi muito disputado e polêmico. O Atlético venceu por 1 a 0 e o Cruzeiro saiu reclamando a anulação de um gol de Tostão, que poderia ter mudado a história do jogo. O Atlético venceu, mas quem comemorou foi a torcida americana.

E a segunda-feira(28 de junho), foi dia de um movimento atípico numa agência do Banco Mineiro do Oeste, na rua da Bahia, no centro da capital. Os jornalistas presenciaram o comparecimento de todos os jogadores do Atlético que receberam cada um a importância de Mil e quinhentos cruzeiros prometidos pelo América.

Foram depositados 30 mil cruzeiros e o dinheiro foi dividido pelo pessoal da agência do banco aos titulares e reservas do time, mais o técnico Telê Santana (6).

A presença dos atletas atleticanos a agência bancária só chegou ao conhecimento da diretoria alvinegra, através da imprensa, que declarou que nada poderia fazer para impedir que um outro clube oferecesse dinheiro pela vitória do time.

Tentando se esquivar, a diretoria atleticana ainda provocou o Fluminense, de Araguari, dizendo que só desta maneira é que aquele clube se empenharia em campo para obter um bom resultado (7).

Apesar da troca de farpas, entre América, Atlético e Fluminense, de Araguari, o clássico de 27 de junho de 1971 evidenciou ao futebol mineiro de que a prática da mala branca não é um mito como muitos pretendem. Ela existe e é uma das facetas deste esporte que, dentre estas e muitas outras coisas, o torna tão fascinante.

Henrique Ribeiro
twitter: @henriqueribe

(1) O América...vai a CFD fazer a denúncia de que há corrupção no futebol mineiro, tirando por base as declarações e atos do presidente do Fluminense, de Araguari, antes e depois da partida de sábado no Mineirão. (...) Afirmou que era torcedor do Cruzeiro e que o Fluminense estava pronto para ajudá-lo naquilo que fosse preciso. (...) O que agravou mais a situação, na opinião do diretor do América (Roberto Calvo), foi a exibição de um cheque de Cr$ 12 mil pelo Cruzeiro para servir de estímulo aos jogadores. (América denuncia corrupção – jornal Estado de Minas – 22/06/1971)

(2) O América faz denúncia de corrupção diante de que dificilmente poderia ter sucesso. Todos sabem que o Botafogo tentou a mesma coisa contra o Atlético, que ofereceu 50 mil ao Santos por uma vitória na parte final do Robertão. O CFD respondeu que não há lei que impeça o favorecimento de dinheiro como estímulo e só haveria apuração do fato se ele fosse ao contrário, no caso de suborno. (América denuncia corrupção – jornal Estado de Minas – 22/06/1971)

(3) “Se o dinheiro está ajudando a ganhar jogos em Minas, o América não vai deixar que só os seus adversários o usem abertamente. Vai usá-lo também”. Pensando assim, alguns conselheiros, ex-dirigentes e também membros da diretoria resolveram fazer lista tentando conseguir Cr$ 40 mil, para dar de bicho aos jogadores do Atlético, no domingo para que eles derrotem o Cruzeiro. (...)O movimento é liderado por Hélio Brasil de Miranda, que foi vice-presidente na administração de Valter Mello, e esteve reunido ontem na Alameda com várias pessoas para fazer uma lista de nomes. Cada torcedor rico do América será chamado a colaborar. (...)O América acredita que na base dos CR$ 3.000,00 por pessoa, o Atlético vai dar tudo domingo contra o Cruzeiro e deve ganhar fácil (América paga bicho ao Atlético – jornal Estado de Minas – 24/06/1971)

(4) O Atlético vai enfrentar o Cruzeiro com disposição de vencê-lo sem precisar de estímulos extras.(...) Para a diretoria do Atlético, o time não vai fugir da responsabilidade para com a sua torcida e com os outros clubes. A notícia de que o América vai oferecer Cr$ 50 mil de bicho aos jogadores pela vitória e um prêmio especial para Dario, por gol marcado, foi recebida normalmente, mas o Atlético não toma conhecimento dela e entende que é um jogo perigoso, pois quem tenta estimular a vitória pode querer comprar a derrota também. (Vitória vale título para o Atlético – jornal Estado de Minas – 22/06/1971)

(5) “Não sou milionário e se me presentearem dinheiro para marcar gols, eu aceito. E não me envergonho disto. Sou capaz até de receber um cheque vivo num canal de televisão...” (Se quiserem dar bicho Dario aceita – jornal Estado de Minas – 27/06/1971)

(6) Todos os jogadores do Atlético passaram ontem pelo Banco Mineiro do Oeste, agência Bahia, e receberem Cr$ 1.500.000,00 prometidos pelo ex-diretor Hélio Brasil de Miranda, do América, que juntamente com outros americanos, pagou Cr$ 30.000,00 pela vitória sobre o Cruzeiro...O dinheiro foi depositado e dividido pelo pessoal do banco entre titulares, reservas e técnico (América pagou o Atlético – jornal Estado de Minas – 29/06/1971)

(7) O Atlético...deixou claro que não tomou conhecimento do presente dado pelos americanos aos jogadores....Para a diretoria, o Atlético é muito grande e não precisa de motivação extra para vencer. Não agimos como o Fluminense, de Araguari, que ofendeu a todos recebendo dinheiro diretamente e dando a entender que se não houvesse uma compensação não conseguiria um bom resultado diante do América. Se quisesse premiar nossos jogadores nada poderemos fazer para impedir, mas não aprovamos a medida. (América pagou o Atlético – jornal Estado de Minas – 29/06/1971)
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