quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Em 1967 o primeiro clássico mineiro no Campeonato Brasileiro

Drible desconcertante de Tostão deixou o marcador alvinegro caído no gramado

Com o reconhecimento dos Torneios Roberto Gomes Pedrosa, como Campeonato Brasileiro pela CBF, o clássico pelo Robertão de 1967 em que o Cruzeiro goleou o Atlético por 4 a 0 passou a ser o primeiro da história da competição. A partida aconteceu no dia 5 de março de 1967.

Anteriormente, o primeiro clássico era o do Robertão de 1970 que, naquele ano, passou a valer pelo título de "campeão brasileiro". A partida foi disputada em 25 de outubro e terminou empata em 1 a 1.

A Federação Mineira indicou Cruzeiro e Atlético para participarem do Robertão de 1967 pelo critério das rendas no Campeonato Mineiro.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa era o nome fantasia do Torneio Rio-São Paulo e era organizado pela Federação Paulista. Em 1965 os clubes de Rio e São Paulo resolveram estender o Torneio para outros três estados que consideravam futebolisticamente desenvolvidos como o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná.

Como o calendário da CBD já estava aprovado até 1966, a estréia dos clubes fora do eixo ficou para a edição de 1967. A Federação gaúcha indicou a dupla gre-nal e a do Paraná o extinto time do Ferroviário.

O Robertão de 1967 teve 15 clubes. O Cruzeiro participou do Grupo A que teve 7 equipes (Corinthians, Internacional, Bangu, São Paulo, Fluminense e Botafogo) e o Atlético do grupo B que teve 8 equipes (Palmeiras, Grêmio, Portuguesa, Santos, Flamengo, Vasco e Ferroviário-PR).

Na primeira fase todos se enfrentaram em turno único. Os dois primeiros colocados de cada chave prosseguiram para a segunda fase e se enfrentaram em turno único. O time que somou o maior número de pontos na segunda fase foi o campeão.

A competição de 1967 não era oficial, ou seja, o clube que se recusasse a disputá-la não sofreria nenhuma sanção e algumas equipes chegaram a escalar jogadores irregularmente inscritos não sendo punidas com a perda de pontos.

O clássico entre Cruzeiro e Atlético foi marcado para a primeira rodada. O Atlético vinha com uma sequência invicta de 21 partidas e o Cruzeiro retornava da Venezuela, onde havia feito duas partidas pela Libertadores e um amistoso no Peru em que não havia convencido com as suas apresentações.

Durante a semana, o vice-presidente do rival, Valney Fernandes, ofereceu um milhão de cruzeiros antigos como prêmio pela vitória sobre o Cruzeiro e este foi o maior valor oferecido em jogos regionais.

O comparecimento aos terreiros de umbanda, no sábado à noite, foi maior que o habitual e o delegado de costumes da capital atribuiu ao clássico de domingo.

O jogo também marcou a estréia da Toca da Raposa como a concentração oficial do Cruzeiro. O clube havia adquirido, em fevereiro, um terreno de 62 mil metros quadrados, na Pampulha, no valor de Cr$ 73 milhões.

Os dormitórios dos jogadores ficaram prontos a tempo para a equipe se concentrar antes do clássico. Todas as instalações só ficariam prontas em 1973 quando ocorreu a inauguração oficial.

O jogo atraiu um público de 103 mil pessoas no Mineirão sendo 75% formado pela torcida rival, o que gerou protestos do presidente Felício Brandi junto a Ademg que destinou apenas 25% do espaço do estádio para a torcida cruzeirense.

Felício contestava o critério de divisão e reinvindicava a metade do estádio, pois garantia que a torcida cruzeirense era muito maior do que supunham os administradores do Mineirão e, mais tarde, quando foi atendido provou que estava certo.

Se dependesse dos dois paraquedistas patrocinados pelo extinto Banco da Lavoura, o Cruzeiro não levaria o clássico. O primeiro deles trazendo a bandeira do Atlético caiu no meio do gramado e foi muito aplaudido.

O outro, com a bandeira do Cruzeiro, deixou a impressão de que cairia em cima da marquise, depois nas arquibancadas, mas acabou caindo na beirada do campo. A bola do jogo veio num paraqueda separadamente.

O Atlético fez jus a sua boa fase apenas nos 30 minutos iniciais quando dominou a partida, mas foi surpreendido com um gol do atacante Evaldo que abriu o placar para o Cruzeiro, após receber passe de Dirceu Lopes.

Daí pra frente foi moleza. O Cruzeiro desnorteou o bloqueio defensivo alvinegro com Natal e Hilton Oliveira abrindo o jogo pelas extremas. Além da velocidade dos dois pontas, o Cruzeiro ainda teve a inspiração do craque Tostão que desequilibrou o meio campo.

Este jogo, segundo Tostão, foi o melhor clássico que ele fez em sua trajetória com a camisa cruzeirense.

Cruzeiro e Atlético foram eliminados na primeira fase. O Cruzeiro ficou em 3o lugar no grupo A e o Atlético em 5o no grupo B. O Palmeiras foi o campeão e o Internacional o vice.

O treinador atleticano Gérson dos Santos culpou a inexperiência da equipe pela goleada sofrida, enquanto Airton Moreira, do Cruzeiro, disse que a vitória já era prevista.

O presidente do Cruzeiro Felício Brandi não perdeu a oportunidade para soltar mais uma de suas provocações categóricas que  marcaram sua passagem no comando mais alto do Clube dizendo que "o Atlético melhorou, mas não o suficiente para jogar com o Campeão Brasileiro"

Na segunda feira um mecânico atleticano compareceu a sede do Cruzeiro travestido de mulher para pagar uma aposta que fez com os amigos cruzeirenses.

Foi recebido ululantemente pela garotada que se concentrou na porta do clube a espera dos jogadores do Cruzeiro.

Permaneceu no estádio do Cruzeiro por algum tempo, suportando muito sem graça as variadas brincadeiras azuis. Terminado tudo retornou a oficina da rua Mato Grosso onde foi recebido com foguetes pelos colegas.

A ficha do Jogo

CRUZEIRO 4 x 0 ATLETICO (MG)
05/03/1967 - Campeonato Brasileiro (1a fase) - Mineirão (Belo Horizonte, MG)
Público: 91.042 (Ncr$ 190.607,)
Árbitro: Olten Aires Abreu (MG)
Auxiliares: Joaquim Gonçalves (MG) e Sílvio Gonçalves (MG)
Gols: Evaldo 30', Evaldo 52', Natal 67', Wilson Almeida 82'
Cruzeiro: Raul, Pedro Paulo, Celton, Procópio, Neco, Piazza (Zé Carlos), Dirceu Lopes, Natal (Wilson Almeida), Evaldo (Marco Antônio), Tostão, Hilton Oliveira. T: Airton Moreira
Atlético: Hélio (Luisinho), Canindé, Vander, Grapete, Warlei, Vanderley, Laci (Paulista), Buião, Santana, Edgar Maia, Ronaldo (Tião). T: Gérson Santos

Henrique Ribeiro
@henriqueribe
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