sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O surgimento da Squadra Azurra Brasileira

Com o nome alterado em 1942, o clube só estrearia com a denominação Cruzeiro e o novo uniforme em fevereiro de 1943, com o escudo das cinco estrelas, a camisa azul com uma larga gola branca (moda na época) e o calção branco. Detalhe: as meias eram azuis, mas o clube atuou ainda em algumas partidas com as meias vermelhas com listras verde e branca do Palestra

Foi na noite do dia 7 de outubro de 1942 que o Palestra Itália, o Palestra Mineiro, mudou a sua identidade para Cruzeiro Esporte Clube. Numa assembléia geral, sócios, atletas, conselheiros e membros da diretoria aprovaram o nome sugerido pelo ex-presidente Oswaldo Pinto Coelho. Assim, o clube passou a ostentar o nome e a constelação cívica do Cruzeiro do Sul, o símbolo maior da pátria, presente nas armas da república.

Em 1942, o mundo estava envolvido com a segunda guerra mundial e o Brasil vivia em estado de beligerância, junto aos países que formavam o eixo Japão-Itália-Alemanha. Um decreto lei do governo federal impediu o uso do nome e dos símbolos das nações inimigas, mas mesmo assim o clube não fugiu a sua característica "brasiliana" e adotou a cor azul, símbolo maior da Itália, que era uma referência a Casa de Savoia, residência oficial da realeza italiana, que comandou o país até o desfecho da segunda guerra mundial em 1945. O exército e as seleções esportivas da Itália adotam em seus uniformes a cor azul até os dias atuais.

O clube sempre preservou o conceito "brasiliano" em seu uniforme. No período em que foi o Palestra Itália, entre 1921 e 1942, o uniforme fazia uma alusão as bandeiras das duas pátrias. A meia vermelha, o calção branco e a camisa verde representavam as listras da bandeira da Itália e o conjunto da camisa, com o escudo em forma de losango com um círculo ao centro representam as três figuras geométricas da bandeira do Brasil.
Após a reunião, toda a diretoria do clube renunciou, incluindo o presidente Ennes Ciro Pony, o grande motivador da nacionalização do Palestra e da sua transformação em Cruzeiro Esporte Clube. Foi o desfecho do processo que teve início em 1939, quando 90% dos sócios, conselheiros e atletas, que levou o nome de "Ala Renovadora", clamaram pela nacionalização do Clube sob o argumento de que o nome Itália inibia o aumento da massa torcedora.

No entanto, o time de futebol só jogou oficialmente com o novo nome e uniforme após a aprovação de seus estatutos pela Federação Mineira. O trio Ninão, Wilson Saliba e Mario Tornelli elaborou o documento e o entregou a entidade, que o aprovou com três meses de atraso.

Assim, a estreia do Cruzeiro só aconteceu num amistoso contra o São Cristovão-RJ, em 14 de fevereiro de 1943, no estádio do Barro Preto. Até aquela data atuou com o nome e uniforme do Palestra, conforme as atas das súmulas dos jogos da Federação Mineira publicadas nos jornais da época.

O São Cristovão foi a sensação do Campeonato Carioca de 1943 e seu ataque era considerado o mais rápidos do país. Curiosamente, naquela tarde, o time carioca também fazia o seu primeiro jogo como São Cristóvão Futebol e Regatas, após a fusão entre São Christovão Athletico Club e Club de Regatas São Christovão homologada na véspera do amistoso.

Um imprevisto durante a semana fez com que o novo uniforme feito por uma fábrica de material esportivo de São Paulo não chegasse a tempo para a partida e o Cruzeiro Esporte Clube (registrado pela primeira vez nas atas da Federação Mineira) fizesse a sua primeira partida com o uniforme do Palestra. Os cariocas fizeram jus a fama do seu ataque. Terminaram o primeiro derrotados por 2 a 0, mas viraram o placar para 5 a 3.

Os adversários fizeram outro amistoso, no outro domingo, no mesmo estádio do Barro Preto. Desta vez, o Cruzeiro atuou com o seu primeiro uniforme: camisa azul e calção branco e meias vermelhas com listras brancas e verdes. As meias eram as mesmas dos tempos do Palestra Itália e, até 1944, se alternavam com as meias azuis que acabaram prevalecendo e, anos mais tarde, foram se alternando com as meias brancas. O São Cristovão provou, novamente, a sua superioridade e goleou por 4 a 1.

Após aquele amistoso o futuro promissor acompanharia o renovado clube de Belo Horizonte, agora denominado Cruzeiro, pois duas décadas depois deixaria o seu provincianismo para se tornar um clube do mundo. Por outro lado, o também renovado São Cristovão,  não teve a mesma sorte. Como o tempo se definhou e hoje vive no ostracismo.

CRUZEIRO 3 x 5 SÃO CRISTOVÃO (RJ)
14/02/1943 – amistoso - Barro Preto (Belo Horizonte, MG)
Renda: Cr$ 10.800,
Árbitro: Guilherme Gomes (RJ)
Gols: Nogueirinha (1-0); Nogueirinha (2-0); Magalhães/2o tempo (2-1); Alcides (3-1); Caxambu (3-2); Papeti (3-3); Nestor (3-4); Nestor (3-5)
Cruzeiro: Geraldo II; Gérson e Azevedo; Bibi (Fuinha), Juca e Caieirinha; Nogueirinha, Rizzo II (Pedro), Niginho (Ari), Ismael e Alcides. T: Bengala
São Cristovão: Joel; Mundinho e Pelado; Gualter, Papeti e Castanheira; Santo Cristo, Alfredo, Caxambu, Nestor e Magalhães. T: Abel Picabéa

CRUZEIRO 1 x 4 SÃO CRISTOVÃO (RJ)
21/02/1943 – amistoso - Barro Preto (Belo Horizonte, MG)
Renda: Cr$ 7.000,
Árbitro: Guilherme Gomes (RJ)
Gols: Caxambu (0-1); Caxambu (0-2); Santo Cristo (0-3); Santo Cristo (0-4); Bituca, de falta (1-4)
Cruzeiro: Geraldo II (Orlando); Gérson (Bibi) e Azevedo; Bituca, Juca e Caieirinha; Nogueirinha, Rizzo II, Niginho, Ismael e Alcides. T: Bengala
São Cristovão: Joel; Mundinho e Pelado; Gualter (Dodô), Papeti (Bianchi) e Castanheira; Santo Cristo, Alfredo, Caxambu, Nestor e Magalhães. T: Abel Picabéa
Preliminar: Curvelano 3 x 2 Duque de Caxias.

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