terça-feira, 15 de maio de 2012

A bola que equivale a um troféu


A bola que está exposta na estante de troféus do clube na sede do Barro Preto
é um dos capítulos da rivalidade entre cruzeirenses e atleticanos em 1931

Por Henrique Ribeiro

O Cruzeiro sagrou-se tricampeão de Belo Horizonte das temporadas de 1928, 1929 e 1930 e, até janeiro de 1931, ainda não havia recebido a cobiçada Taça "Liga Mineira".

O troféu havia sido instituído pela Liga Mineira em 5 de dezembro de 1918 e era transitório. O clube que conquistasse o campeonato por três vezes consecutivas ou quatro alternadas ficaria com a sua posse em definitivo.

O América teria direito a duas taças pelos dois tris consecutivos de 1919, 1920 e 1921 e de 1922, 1923 e 1924. A disputa do novo troféu passou a valer desde 1925, e desde então, apenas o Cruzeiro foi tri consecutivo.

O recém-eleito presidente do Cruzeiro, Americo Gasparini, cobrou do presidente do Atlético, Anibal de Matos, que respondia, simultaneamente, pelo cargo de presidente da Liga Mineira, a taça de campeão.

É que o cartola cruzeirense imaginou que o troféu estava de posse do Atlético desde 1926, já que o clube de Lourdes havia vencido o campeonato daquele ano e o de 1927,  mas que não havia repassado ao Cruzeiro, desde que o clube levantou o campeonato de 1928!

A demora em fazer a entrega do troféu fez com que os cruzeirenses partissem para a provocação. Como não havia troféu para expor na vitrine da sede do clube, que funcionava num prédio da rua dos Caetés, improvisaram uma bola (foto acima) e escreveram no couro a seguinte inscrição: Palestra 5, Athletico 2, que se referia ao placar mais impiedoso imposto ao rival durante a campanha do tri. Lembrando que, naquele ano, o Cruzeiro ainda se chamava Palestra Itália.

No entanto, verificou-se que a demora dos atleticanos em repassar o troféu ao Cruzeiro não se tratava de pirraça, mas de uma falha da Liga Mineira. É que nem os alvi-negros o haviam recebido. Descobriu-se que, após o América ter levantado o tri de 1919, 1920 e 1921 ficou com posse definitiva do primeiro troféu e que, a partir de 1922, outra Taça sequer foi confeccionada e por isso não foi entregue a nenhum campeão, desde então.

Anibal de Matos então solicitou aos membros do departamento técnico da Liga Mineira, Adão Lopes e Antonio Yemeiy Rodrigues, que fizessem um levantamento de todos os campeões do período e a quem caberia os prêmios.

O jornal Estado de Minas, de 16 de janeiro de 1931, publicou o trabalho e descobriu-se que, com a reforma dos estatutos de 11 de março de 1927, a posse definitiva passou a ser de dois anos consecutivos ou três alternados.

Assim, a entidade mandou confeccionar na Joalheria Diamantina mais três taças: uma para o América pelo tri de 1922, 1923 e 1924, uma ao Atlético pelo bi de 1926 e 1927 e uma ao Cruzeiro pelo bi de 1928 e 1929. 

O mais interessante é que o levantamento revelou que o Campeonato de 1925, que seria o último da série do "polêmico" deca-campeonato do América, não existiu conforme ata da reunião entre os clubes e a direção da Liga Mineira, de 18 de dezembro de 1925. Portanto, na verdade, o coelho é enea-campeão e nunca foi deca-campeão.

Outro detalhe é que os clubes receberam o diploma de "campeão de Belo Horizonte" em cada ano que conquistaram o Campeonato e não de "campeões mineiros", conforme publica, erroneamente, a Federação Mineira de Futebol, em seu site oficial.

Mesmo com a pendência resolvida, a bola com a provocação aos atleticanos que substituiu, temporariamente, a Taça "Liga Mineira", até hoje está presente na galeria de troféus do clube. A relíquia está exposta ao lado das taças mais importantes da história do clube no hall principal da sede do Barro Preto.

A foto dessa bola também serviu como ilustração de capa do livro "Futebol no embalo da nostalgia" publicado pelo jornalista Plínio Barreto nos anos 1970. 

twitter: @henriqueribe
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