sexta-feira, 25 de maio de 2012

Cruzeiro jantou e o Galo pagou a conta

O time do Cruzeiro, ainda como Palestra Itália, em 1934

Por Henrique Ribeiro

A vitória do Cruzeiro por 4 a 3 sobre o Atlético, em 9 de dezembro de 1934, foi resultado de uma reação inesperada e uma virada sensacional. Como nos dias atuais, não terminou após o apito do árbitro e teve um curioso desdobramento, durante a noite, quando os jogadores cruzeirenses foram a um restaurante saborear um jantar previamente pago pela diretoria atleticana aos jogadores alvinegros.

"O match de domingo entre Palestra e Athletico foi uma fraca exhibição de futebol e uma cabal demonstração de ardor e enthusiasmo que substituiu a technica e as jogadas de escola", definiu o jornal Estado de Minas, de 11 de dezembro, que naqueles tempos não circulava as segundas-feiras.

O primeiro tempo do classico foi escasso em lances de gol e abundante em violência. "Desde o início, o jogo se caracteriza por uma verdadeira tourada, onde tomam parte quasi todos os jogadores. A caixa de medicamentos é levada de um lado para o outro, soccorrendo as victimas", ironizou o Estado de Minas.

O ponta-direita Pantuzzo, do Cruzeiro, com o gol vazio a sua frente desperdiçou a primeira chance do jogo. Era um "gol de empurrar", segundo o jargão da época. Já o Galo não desperdiçou seu primeiro momento e, logo aos 3 minutos, abriu o marcador. Num chute do médio direito Tito, a bola foi desviada de cabeça pelo centro-avante Guará e entrou no ângulo esquerdo do gol.

Em vantagem no placar o time de Lourdes controlava a partida e voltaria a criar outra chance, aos 35 minutos, com o ponta-direita Dario que perdeu "um gol de empurrar".

O Cruzeiro ainda não havia encontrado o seu jogo e, desorganizado, buscava o empate na base do abafa, que não surtia resultado. Num desses lances dentro da área atleticana, o ponta esquerdo Calixto acertou o olho do zagueiro Tião. O jogo ficou paralisado durante cinco minutos para o atendimento ao jogador alvinegro.

Reiniciada a partida, o Galo voltou a marcar aos 37. Guará dribla Ferreira e cede para Paulista, que se livra de Raul e Caieira e chuta forte para fazer 2 a 0 para os "riscados", como era chamado o time por causa da camisa listrada.

Em seguida, Guará, em posição de impedimento, chuta para o fundo das redes, mas o gol é anulado. Certamente, esse lance passaria despercebido, caso o Atlético não tivesse caído de produção, após o segundo gol. No entanto, com a derrota, foi eleito pela crônica da capital, como mais um "se". Essa eterna probabilidade injusta que insiste em perseguir o "mais querido das redações esportivas".

Curiosamente, mesmo em desvantagem no placar, o Cruzeiro dominou os minutos finais e, no último lance da primeira etapa, marcou seu gol, que surgiu numa troca de passes entre Bengala, Orlando e o meia Zezé, que concluiu a jogada com um chute rasteiro no canto direito. Armando engoliu um “red island", como era chamado o "frango". Antes do gol, Pantuzzo já havia acertado uma bola na trave.

"Quando chegamos ao vestiário, o técnico Matturio Fabbi chorava convulsionamente. Enquanto descansamos ninguém trocou uma palavra. Silêncio sepulcral. O juiz apitou chamando os quadros. Na porta, Fabbi bateu nas costas de um por um, acentuando com uma voz trêmula: o jogo vai começar agora, meus rapazes", recordou o zagueiro Raul numa entrevista ao repórter Afonso de Souza, do Estado de Minas, em 7 de maio de 1950. 

E o time voltou para o segundo tempo no mesmo ritmo que encerrou o primeiro. "O Cruzeiro actuou magnificamente, notadamente na phase derradeira, quando se impoz nitidamente ao adversário. Teve mais conjunto e foi mais team que o Athletico", analisou o Estado de Minas. 

O jornal, evidentemente, não deixaria de creditar a derrota ao lance do gol anulado de Guará, como um fator de descontrole do time alvinegro. "Pressentiu que os dois gols de frente eram pouco para segurar a vitória e a reação eminente do time cruzeirense que dominou o restante da primeira etapa. Após o gol do empate, logo aos cinco minutos, o abatimento tomou conta e a derrota atleticana se desenhava como inevitável", justificou o cronista.

Logo, aos 5 minutos, Pantuzzo arrancou para a área e, após passar por Mario Gomes, Evando e Tião, desferiu um chute indefensável para as redes e empatou o clássico.

Aos 7 minutos, o mesmo Pantuzzo entra livre na área, mas o lance é impugnado pela arbitragem que assinala um impedimento inexistente, segundo o Estado de Minas. Com certeza, este lance não seria aplicado pelas redações esportivas para justificar uma provável derrota do Cruzeiro.

No minuto seguinte, o Cruzeiro estabeleceu a virada. Pantuzzo se livrou da marcação de Mario Gomes e mandou a bola para as redes: Cruzeiro 3 a 2!

O Galo errava em insistir nas jogadas pelo lado esquerdo, onde Elair, o 35, como era chamado, devido ao número do seu calçado, falhava seguidamente.

As jogadas violentas passariam a predominar no clássico. "Scenas de catch-as-catch-can são observadas pelo público, que incita seus sympathisantes à revanche", descreveu o Estado de Minas.

O time de Lourdes, abatido com a virada, não tardaria para encontrar uma razão para interromper a partida na tentativa de esfriar o ritmo do adversário. Aos 15 minutos, o atacante Guará foi desarmado pelo zagueiro Raul, dentro da área. O Estado de Minas jura, de pé junto, que ele foi seguro pelo zagueiro.

O goleiro Armando, com a sua visão de águia, enxergou a infração, lá do outro lado do campo, e abandonou o seu gol para reclamar com o árbitro Dunorte André, de forma enérgica. Começava a catimba. Ao invés de expulsar o goleiro, Dunorte preferiu entregar o apito e abandonou o campo. Uma medida comum naquela época.

Curiosamente, Dunorte pertencia à diretoria do Atlético tendo sido inclusive ex-goleiro da equipe. Por isso a avaliação de sua arbitragem foi bastante comedida pelo Estado de Minas. "Dunorte André, um rapaz distinctíssimo, em quem reconhecemos probidade inatacável e bastante competência, não tem sorte ao apitar os jogos de seu clube, o Athletico. Errou s. s. anullando o goal de Guará, dando como em off-side quando ele encontrava entre os zagueiros, na mesma linha. Depois, errou outra vez s. s. não punindo Raul quando segurou Guará pela cintura commetendo indiscutível falta na área. Puniu continuamente os fouls verificados mas não soube impor energia aos "players", deixando que estes se divertissem à valentona"

Após 34 minutos de paralisação, Renato Fantoni, dirigente do Cruzeiro, se dispôs a apitar os 25 minutos restantes. O recomeço foi tenso e incitados pela torcida os jogadores passaram a visar mais o adversário do que a bola. Não demorou três minutos e o Cruzeiro marcou mais um. Armando não segura uma bola chutada por Zezé e Calixto aproveita o rebote para ampliar: Cruzeiro 4 a 2. O Atlético conseguiria diminuir 10 minutos depois, com Guará, num chute colocado que encobriu o goleiro Geraldo.

No vestiário, Fabbi num misto de choro e riso berrava: "eu sabia que vocês eram meus amigos e nunca me desmoralizariam!". A noite sucedeu um caso ainda mais curioso. A diretoria do Atletico havia reservado, num restaurante da avenida Santos Dumont, um jantar em sinal de regozijo pela vitória que, para eles, era fato consumado. O jantar constava de uma macarronada à italiana em alusão ao Palestra Itália. Cientes dessa reserva e de que os atleticanos jamais iriam jantar ali, fomos ao restaurante e consumimos a macarronada aos gritos de "hurras", "vivas", regada com um bom vinho", recordou o zagueiro Raul em sua entrevista ao Estado de Minas, em 7 de maio de 1950.

CRUZEIRO 4 x 3 ATLÉTICO
09/12/1934 (Dom-16h) - amistoso - Barro Preto
Árbitro: Dunorte André (Renato Fantoni/55')
Gols: Guará 3’ (0-1), Paulista 37’ (0-2), Zezé 40’+5’ (1-2), Pantuzzo 45’ (2-2), Pantuzzo 48’ (3-2), Calixto 80’+27’ (4-2), Guará 80+37’ (4-3)
Cruzeiro: Geraldo, Raul e Caieira (Chiquinho); Souza, Ferreira e Mundico; Pantuzzo, Orlando (Carlos Alberto/46'), Zezé, Bengala e Calixto. T: Matturio Fabbi
Atlético: Armando, Tião e Evando; Tito, Lola (Jacir/55') e Mário Gomes; Dario, Paulista, Guará, Bitola e Elair. T: Floriano Peixoto
*O Cruzeiro que ainda era Palestra, jogou com a camisa verde clara com gola branca e punho vermelho, calção e meias cor de vinho e o Atlético com uma camisa com listras verticais finas pretas e brancas, calção branco e meias pretas. Até 1941 o tempo regulamentar das partidas era de 80 minutos divididos em dois tempos de 40 cada.

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