quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Cruzeiro muito além da bola

O treinador Airton Moreira é carregado pelos jogadores cruzeirenses
no gramado do Mineirão em comemoração a conquista do Campeonato
Mineiro de 1965, que foi o primeiro da era do estádio da Pampulha. Um grande
time de futebol que era cercado de superstições.

Por Henrique Ribeiro

Para alguns torcedores, jogadores e dirigentes uma equipe de alto nível formada pelos melhores jogadores não é o suficiente para o time trilhar o rumo das vitórias e das conquistas. Para estes tramar com a sorte é fundamental para atingir os resultados e as fases positivas. Isto pode ser constatado com  uma série de ações supersticiosas que acompanharam o Cruzeiro ao longo da história. Bola velha usada como amuleto, ritual com chuteira incinerada, opção pela escolha do lado do campo, alterações de números e cor das camisas, dentre outras crenças em busca da sorte, fizeram parte desse mundo cruzeirense além da bola.

A bola velha
Em todas as partidas do Campeonato Mineiro de 1965 o time da constelação seguiu o ritual de entrar em campo com uma bola velha. Mesmo com um plantel de craques como Dirceu Lopes, Tostão, Piazza, Marco Antônio, Wilson Almeida e Hilton Oliveira acreditavam que aquela bola era o amuleto de sorte de que o time precisava para levantar o primeiro título da era Mineirão.

O cara ou coroa
O zagueiro Vavá, foi o capitão do time entre os anos de 1961 a 1965. Antes da partida, na disputa do cara e coroa com o capitão do time adversário, ele não abria mão da escolha do lado do campo deixando o adversário com a opção da saída de bola. É que, no Mineirão, Vavá acreditava que o time dava mais sorte quando começava jogando na parte do campo, que fica ao lado esquerdo das cabines de imprensa do estádio.

Quintas-feiras
Na década de 1960 os jogos das rodadas de fins de semanas do Campeonato Mineiro foram desmembrados nas quintas, sextas, sabados e domingos. Quando algum jogo do Cruzeiro era agendado para a quinta-feira, os jogadores pediam a diretoria para que alterasse a data. O motivo: quinta-feira dá um azar danado!
O goleiro Raul improvisou uma blusa do lateral Neco como
camisa de goleiro num clássico contra o Atlético em 1966. Ele
creditou a cor amarela como o seu fator de sorte e a adotou em seu uniforme.

A camisa amarela
O goleiro Raul, assim que chegou ao Cruzeiro, em 1966, não convenceu em suas primeiras partidas. Tudo mudou num clássico amistoso contra o Atlético, no Mineirão, quando teve que substituir o goleiro titular Tonho. Os clubes, naqueles tempos, não tinham fornecedores de material esportivo e as camisas de goleiro disponíveis só serviam ao titular Tonho, que tinha menor estatura que Raul. O goleiro pegou emprestado do lateral esquerdo Neco, uma blusa de frio amarela e improvisou o número um com uma fita isolante preta nas costas. Raul fechou o gol, ganhou a posição de titular e creditou ao amarelo a sua cor da sorte. Ele então mandou fabricar camisas de goleiro dessa cor. Anos mais tarde, usou camisas com outras cores (azul clara, vermelha e laranja), que acabaram influenciando outros goleiros a abandonarem as sóbrias camisas pretas e cinzas. Raul até tentou se desfazer do amarelo, mas a pedidos da torcida que incorporou nas bandeiras azuis e brancas nas arquibancadas uma listra amarela em sua homenagem, Raul convenceu-se de que a camisa amarela era, no mínimo, a sua marca.
Evaldo com a camisa branca observa o jogador santista com a camisa listrada
alvinegra buscando a bola no fundo do gol na decisão do Campeonato Brasileiro
de 1966, no Pacaembu. A partir daquele jogo a camisa branca virou um símbolo
de sorte e das viradas.

O uniforme da reação
Durante décadas os torcedores do Cruzeiro reputaram ao uniforme reserva, o de cor branca, o símbolo da reação cruzeirense. Sempre quando o time começava mal um campeonato a torcida sugeria a troca do uniforme. A superstição foi tão levada a sério, que em muitos jogos, quando o time fazia uma má apresentação no primeiro tempo, retornava para a segunda etapa de uniforme trocado. Era um aviso a torcida de que a reação viria.

Treino ruim
Nos anos 1970, todas as vezes que o time titular não desempenhava um bom papel e sofria uma derrota para o time reserva num jogo-treino (coletivo), jogadores, comissão técnica e diretoria creditavam o mau resultado ao prenúncio de bom jogo. E o ditado era: "treino ruim, jogo bom!"

Zé Carlos
O volante Zé Carlos é o recordista em número de jogos pelo Cruzeiro e atuou pela equipe entre os anos de 1966 a 1977. Todas as vezes que uma substituição era promovida no time do Cruzeiro no decorrer da partida, a primeira coisa que ele procurava fazer era passar a bola para o jogador que havia acabado de entrar.
Joãozinho com a 10? Isso foi possivel com a troca das numerações
das camisas na Libertadores de 1976. Manobra para enganar os adversários
ou superstição?

A numeração trocada de 1976
Quando o departamento técnico do Cruzeiro divulgou a lista dos inscritos para a Taça Libertadores chamou a atenção de todos os números das camisas dos jogadores. O lateral direito Nelinho que, tradicionalmente, usava a camisa 4, foi inscrito com o número 9, que era a camisa do atacante Palhinha, que levou o número 5, que era do volante e capitão Piazza que usou a 13. O meio campo Eduardo jogou com a 11 que era do ponta esquerda Joãozinho que usou a 10. Na ocasião, ninguém do clube quis explicar a troca dos números. Acredita-se que a sugestão foi do técnico Zezé Moreira com o objetivo de ludibriar os adversários, já que isto era comum nos times argentinos. Uma outra versão era de que a troca dos números nas camisas traria sorte ao time.
O meio campo Palhinha foi o maestro das campanhas dos títulos da
Libertadores de 1997 e da Copa do Brasil de 1996.

Fogo na chuteira
O meio campo Palhinha assim que chegou ao Cruzeiro em 1996 promoveu um ritual solitário e diferente na Toca da Raposa. O craque fez uma fogueira com a sua chuteira velha. Ele acreditava que o ritual lhe traria sorte. Superstição a parte foi campeão da Copa do Brasil de 1996, da Libertadores de 1997 e duas vezes do estadual de 1996 e 1997 em sua passagem de um ano e meio pelo clube.
Elivelton era um jogador de sorte? O jogador costumava
marcar gols em decisões.
 

O pé quente da Libertadores
O meio campo Elivelton foi o autor do gol do título da Libertadores de 1997 na vitória por 1 a 0 sobre o Sporting Cristal do Peru. Ele somente atuou naquela partida porque um dos titulares, o meio campo, Cleison, foi expulso no primeiro jogo da decisão em Lima. Após a partida, comemorou: "eu sou pé quente!" (uma típica expressão de supersticiosos).
O atacante Roberto Batata com a camisa da constelação

As estrelas soltas
Em 2000 a diretoria do Cruzeiro resolveu retornar o escudo do clube no uniforme do time. Isto gerou vários protestos da torcida. Uma das justificativas apresentadas era de que as estrelas aprisionadas poderiam significar um sinal de mau agouro ao clube. Torcedores mais antigos lembraram do período de vacas magras entre 1946 a 1958 em que o time usava o escudo e ficou sem vencer títulos (o único deste período foi o de campeão da cidade de 1956, dividido judicialmente com o rival). Em 1959 o time estreou a camisa com as estrelas no uniforme e encerrou o período de vacas magras.

Alessandro trazia sorte a equipe? O atacante era reserva, mas
quando entrava no segundo tempo, definia os jogos com as suas jogadas e gols 

O goleador Talismã
O atacante Alessandro em sua segunda passagem pelo Cruzeiro em 2002 (a primeira foi por seis meses de empréstimo em 2001) foi considerado o jogador de sorte do time. Toda vez que entrava no segundo tempo para substituir Lúcio ou Joãozinho, ele mudava a história da partida com gols ou assistências para os companheiros de ataque. Logo foi apelidado pela torcida de Talismã. As suas entradas no segundo tempo definiram várias partidas nas campanhas dos títulos da Copa Sul Minas de 2002 e do Supercampeonato Mineiro de 2002.

O time junior do Cruzeiro campeão da Copa São Paulo de 1997
com o uniforme todo azul.

Tudo azul na base
Os cruzeirenses mais atentos podem perceber que o Cruzeiro campeão brasileiro junior de 1997 e da Copa São Paulo Junior de 1997 jogou a maioria das partidas com o uniforme todo azul. Nas últimas duas décadas as equipes de base do clube (infantil, juvenil e junior) tem optado pela camisa, calção e meias azuis. O motivo não é a orientação da TV ou do árbitro. Tudo começou nos anos 1990 com o diretor Angelo Cattabriga, que acreditava que este uniforme trazia sorte.

Kleber Gladiador no dia de sua apresentação na Toca.
Atacante exigiu a camisa 30.

A camisa 30 do gladiador
O atacante Kleber, assim que chegou ao Cruzeiro, no inicio do ano de 2009, exigiu jogar com a camisa numero 30. O jogador acredita que este é o seu número de sorte.
twitter: @henriqueribe

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