quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ruço: um campeão mineiro derrotado pelo alcool

Foto: Pedro Costa/globo.com
Ruço fez dez partidas com a camisa do Cruzeiro em 1998

Por Henrique Ribeiro

De todas as apresentações oficiais de jogadores que o Cruzeiro contratou, uma das mais inusitadas foi a do lateral direito Ruço, que veio do Vitória, em fevereiro de 1998. Ele chegou a Toca da Raposa, justamente, no momento em que o técnico Zagallo, da Seleção Brasileira, o havia convocado para a Copa Ouro nos Estados Unidos. A notícia provocou uma grande movimentação de repórteres ao centro de treinamentos do Cruzeiro.

Na Seleção, Ruço foi reserva do lateral direito Zé Maria, que viria a ser jogador do Cruzeiro na temporada de 2000. Ele substituiu o titular no decorrer das partidas contra a Guatemala (1 a 1) e El Salvador (4 a 0). A campanha foi considerada um fracasso e o Brasil acabou eliminado pelos Estados Unidos, na semifinal. O México conquistou o título.

O brilho de grande astro, no entanto, parou por aí. Ao retornar da Seleção, Ruço fez exibições apagadas com a camisa cruzeirense, que não justificaram a sua fama de selecionável. Vaiado pela torcida, acabou perdendo a posição para Gustavo e não foi mais relacionado por Zagallo.

Participou de nove partidas pelo Campeonato Mineiro, que o Cruzeiro conquistou naquele ano e uma pela Copa do Brasil, que foi vice-campeão, antes de ter sido envolvido na negociação com o Santos, que resultou na vinda do veterano atacante Muller, em julho de 1998.


Ruço: ‘Perdi a chance de ir para a Copa de 98 por causa da bebida’

Por Pedro Costa

Fama, dinheiro e muitas festas. Estes são ingredientes que compõem um mistura explosiva para a carreira de vários jogadores de futebol. Casos como o do Imperador Adriano e mais recentemente de Jobson, ex-Botafogo, que viram o talento se perder por motivos extracampo, não são raros no mundo da bola. Em Pernambuco, um dos exemplos mais conhecidos é o do lateral-direito Ruço. Conhecido pela habilidade e qualidade ofensiva, o jogador revela que só não disputou a Copa do Mundo de 98 porque se esqueceu de pedir a “saideira”.

Convocado por Zagallo para os torneios preparatórios antes do Mundial da França, Ruço, que após um ótimo início de carreira no Sport, despontava como um dos melhores laterais do país, acabou sucumbindo ao alcoolismo. O jogador reconheceu que este foi o fator determinante para sua queda de rendimento nos gramados.

"As noitadas regadas a muita bebida e prostituição me atrapalharam bastante. Tudo aconteceu muito rápido na minha vida e, como era jovem, as más influências me levaram para o caminho das farras. Saía com jogadores que bebiam, fumavam e cheiravam (cocaína). Nunca me envolvi com drogas, mas cheguei a treinar bêbado algumas vezes. Com isso, meu desempenho em campo foi caindo. Você pode ser o Pelé, mas se não estiver bem fisicamente, não tem jeito, vai sentir o corpo pesar."

Como a maioria dos jogadores, Ricardo Florêncio Soares, o Ruço, teve uma origem humilde. A ascensão meteórica no futebol começou aos 18 anos, quando, num “golpe de sorte” foi parar no Sport. O então desconhecido garoto da periferia do Recife, que ganhou o apelido na juventude por causa dos cabelos amarelos, iria estrear justamente em um clássico contra o Santa Cruz.

"Estava jogando futebol na favela e fui chamado para fazer um teste no Sport. Pouco tempo depois que assinei o meu primeiro contrato, tive a oportunidade de fazer um coletivo no time profissional. Na época, o titular da lateral-direita era o Givaldo, que estava machucado. Daí o Hélio dos Anjos colocou o Rogério, improvisado, mas ele sentiu a perna no treino e deu lugar a Dário, que também se lesionou no treinamento. Passaram ao meu lado e disseram: “Menino você tem estrela”. Fui para o jogo contra o Santa Cruz e não saí mais."

Do Sport, Ruço foi para o Vitória-BA, e foi chamado pela primeira vez para vestir a camisa da seleção Brasileira.

"Lembro que estava chegando para treinar e alguns jornalistas vieram me dizer que eu havia sido convocado para a Seleção Brasileira. Não acreditei e na hora até brinquei com a situação. Só acreditei que era verdade quando vi o meu nome no Jornal Nacional. Foi uma sensação indescritível, porque o sonho de todo jogador é, um dia, chegar à Seleção."

Em 2003, depois de um grande Campeonato Carioca pelo Vasco, o lateral-direito se transferiu para o Spartak Moscou. Foi no frio do Leste Europeu, que o jogador começou a perceber que deveria se afastar do álcool para poder continuar jogando futebol.

"Na Rússia, a ficha começou a cair do mal que estava fazendo para a minha vida. Tinha três anos de contrato com o Spartak, mas não me adaptei. Havia saído do calor do Rio de Janeiro para jogar com -15 graus. Ainda aguentei um ano lá, mas pedi para voltar. Acredito que se não tivesse problemas fora do campo, até hoje, com 36 anos, ainda estaria na Europa."

Depois da má experiência no futebol do exterior, Ruço voltou para Pernambuco, onde jogou novamente pelo Sport, em 2005, pelo Central-PE e Santa Cruz. No retorno, entretanto, não conseguiu ter o mesmo brilho de quando deixou a terra natal.

"Fiquei devendo bastante, na minha segunda passagem pelo Sport. Depois, no Central, consegui jogar bem e fui pra o Santa Cruz. Porém, traí a confiança de todos, voltei para o álcool e fui dispensado. Eu não tinha limites. Só parava quando não conseguia mais me levantar."

Da época em que estava no auge do futebol, Ruço carrega uma grande amizade: o meio-campo Chiquinho, parceiro do início de carreira no Sport, Vitória e depois seleção brasileira, que sempre tentou tirar o amigo do caminho das bebidas.
Foto: Pedro Costa
Ruço e sua esposa Ariana

"O Chiquinho é um irmão para mim. Sempre me deu bons conselhos, me carregava das festas para casa e foi a ponte para que eu me tornasse um novo homem. Foi ele quem me apresentou, ainda nas categorias de base, à mulher que hoje é minha esposa. Ela foi fundamental para que eu largasse o vício e me tornasse uma pessoa ligada à família."

Ariana Florêncio explica como foi difícil convencer o marido, com quem está casada há seis anos, a se recuperar.

- Foi muito complicado para mim. Passei por poucas e boas, mas tudo valeu à pena. Hoje, ele é um ótimo pai e marido e quem o conhecia antes, percebe a mudança. Estou muito feliz com tudo o que está acontecendo nesta nova etapa da nossa vida.

Ruço, que está sem clube (o último foi o Brasil de Pelotas), afirma que ainda não pendurou as chuteiras. O jogador também revelou o desejo de seguir no meio do futebol depois que se aposentar.

"Ainda não chegou a hora de parar. Enquanto tiver pernas, vou procurar jogar bola. O futebol é maravilhoso e penso em, no futuro, ser auxiliar técnico ou quem sabe treinador."


TODOS OS JOGOS DE RUÇO PELO CRUZEIRO

Por Henrique Ribeiro

21/02/1998 - 3 X 2 Valério*
Campeonato Mineiro - Israel Pinheiro (Itabira)
01/03/1998 - 2 X 0 Ipiranga (Manhuaçú)*
Campeonato Mineiro - Mineirão
08/03/1998 - 2 X 1 Atlético**
Campeonato Mineiro - Mineirão
12/03/1998 - 2 X 1 Montes Claros**
Campeonato Mineiro - Independência
15/03/1998 - 1 X 1 Democrata-GV*
Campeonato Mineiro - Mamudão (Gov. Valadares)
18/03/1998 - 1 X 0 Nacional*
Campeonato Mineiro - Mineirão
26/03/1998 - 0 X 0 Caldense***
Campeonato Mineiro - Mineirão
10/05/1998 - 2 X 0 Social***
Campeonato Mineiro - Lamegão (Ipatinga)
17/05/1998 - 2 X 0 Villa Nova***
Campeonato Mineiro - Bonfim (Nova Lima)
23/05/1998 - 0 X 0 Vasco*
Copa do Brasil - São Januário (Rio de Janeiro)

*titular
**substituido no decorrer da partida
***entrou no decorrer da partida

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