sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As decisões entre Cruzeiro e Atlético no Independência

A linha de ataque do Cruzeiro posa para a fotografia no Independência
antes de um clássico contra o Atlético pelo Campeonato de 1956
que terminou com o título dividido entre os clubes

Por Henrique Ribeiro

O rivais Atlético e Cruzeiro protagonizaram três decisões de títulos na era Independência com cada uma guardando uma particularidade. A primeira em 1954 ficou marcada pela escalação de um goleiro aposentado do Cruzeiro na última partida e a segunda, em 1956, por uma disputa nos tribunais que encerrou com um acordo pela divisão do título. A última, em 1962, os rivais tiveram que definir uma série de três partidas num curto espaço de cinco dias.

A era Independência começou em 1950 com a expectativa de melhores arrecadações nos deficitários jogos pelo Campeonato da Cidade. Para aproveitar ao máximo o Gigante do Horto, os clubes decidiram modificar o sistema de disputa. Assim, a fórmula dos pontos corridos que prevalecia, desde a primeira edição do certame em 1915, deu lugar aos turnos distintos, com os vencedores duelando pelo título em uma série de jogos decisivos.

Assim, a primeira decisão entre os rivais no Independência foi pelo título do Campeonato de 1954. Apesar de ter sido disputado por apenas nove participantes, o certame se arrastou até o ano seguinte e levou quase 11 meses para se concluir. Isto tudo por causa da adoção de uma fórmula esdrúxula. O vencedor de cada turno levou para a decisão 10 pontos e, assim, como vencedor do segundo e terceiro turnos, o Cruzeiro somou 20 pontos, enquanto o Atlético somou 10 pela conquista do primeiro. O regulamento definia que o campeão seria o que somasse 25 pontos e para os confrontos das finais cada vitória valeria 5 pontos e o empate 2,5.

Assim, o Cruzeiro estava a uma vitória ou dois empates do título de 1954. Já o Atlético precisava de três vitórias. Ao derrotar o Cruzeiro duas vezes seguidas por 2 a 0 e 3 a 0, o Galo chegou aos 20 pontos e empatou a série. No terceiro jogo os rivais empataram em 1 a 1 e passaram a somar 22,5 pontos cada, o que provocou uma situação inédita, ou seja, caso a quarta partida da série terminasse empatada, os dois clubes chegariam aos 25 pontos e ambos seriam proclamados campeões.

No entanto, durante a semana, o goleiro Chico foi suspenso pelo Tribunal de Justiça Desportiva-TJD. Ele havia sido denunciado por dirigir gestos obscenos a torcida do Galo numa partida do primeiro turno. Como o Cruzeiro não havia renovado o contrato do reserva Crusch, o veterano Geraldo II, que havia encerrado a carreira há dois anos, mas que ainda estava inscrito para o Campeonato, foi convocado para assumir a camisa um. O Galo venceu por 2 a 0 e, pela primeira vez, tornou-se tricampeão. O clube já havia sido bicampeão em seis oportunidades (1926/27, 1931/32, 1938/39, 1941/42, 1946/47, 1949/50), mas não conseguia completar um tri.

Dois anos depois, os rivais voltaram a se enfrentar numa disputa de título no Independência. Após dois empates em 1 a 1 e 0 a 0, o Galo venceu o terceiro jogo por 1 a 0 e comemorou o título. Mas, por pouco tempo. É que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva-STJD, acatou um recurso do Cruzeiro, e deu os pontos do segundo jogo ao time estrelado, por ter o Galo utilizado naquela partida, o jogador Laércio, que estava em situação irregular. A decisão do tribunal provocou o empate na decisão e a FMF foi obrigada a programar uma quarta partida. O Galo então recorreu ao STJD e ao Conselho Nacional do Desporto sem sucesso. A disputa causou um mal estar entre as diretorias, após um dos cartolas do Galo declarar a uma emissora de rádio que no Cruzeiro só haviam cafajestes. Por causa da ofensa a direção estrelada decidiu romper relações com o rival.

Em março de 1959, finalmente, a quarta partida foi marcada e um caso inusitado na política interna cruzeirense aconteceu. O conselho do clube sempre foi contrário a recursos nos tribunais e Cruzeiro jamais em sua história havia pedido os pontos dos adversários, após uma derrota sofrida dentro de campo. Os conselheiros sugeriram que o time não comparecesse a quarta partida e que o título fosse dado ao Atlético, que ganhou o título dentro das quatro linhas.

Num encontro casual entre os dirigentes rivais, num posto de gasolina da capital, ficou definido a divisão do título de 1956 e o ano passou a ter dois campeões. É que os planteis já haviam sido reformulados. No time do Cruzeiro apenas permaneceram o zagueiro Vavá e os atacantes Guerino e Pelau. No Galo apenas faziam parte os zagueiros Benito e William, o lateral Haroldo e o atacante Amorim. Os clubes estavam tendo dificuldades em reunir os jogadores inscritos de 1956. Ainda assim, o conselho do Cruzeiro enviou uma carta a Federação Mineira abdicando do título, mas a entidade fez prevalecer a vontade da diretoria de ambos os clubes e o ano passou a ter dois campeões.

Outro clássico decisivo foi o que confirmou o título de campeão mineiro de 1960 ao Cruzeiro. Um empate sem gols, em 22 de janeiro de 1961, deixou o time estrelado com quatro pontos de vantagem sobre o vice-líder Siderúrgica a uma rodada do término do campeonato. Após o apito final do arbitro a torcida cruzeirense invadiu o campo pra comemorar a conquista com os jogadores. Quando a volta olímpica passou frente a torcida atleticana, o inusitado ocorreu. Ao invés das tradicionais vaias, os atleticanos aplaudiram os cruzeirenses em reconhecimento ao título.

A última vez que o clássico decidiu um título foi em 1962. Naquele ano os rivais encerraram o Campeonato na liderança e tiveram que disputar o caneco numa série de três partidas. No entanto, as finais foram adiadas para depois do Campeonato Brasileiro de Seleções, que começaria em janeiro de 1963. Os jogadores rivais formavam a base da Seleção Mineira. Após eliminar o Paraná, os mineiros derrotaram os paulistas na semifinal e conquistaram o título sobre os cariocas, em pleno estádio Maracanã, no dia 30 de janeiro.

Após o título, a Confederação Brasileira do Desporto-CBD convocou a Seleção Mineira para formar a base da Seleção Brasileira na Copa América com início em março. O treinador Aymore Moreira convocou cinco jogadores cruzeirenses (Massinha, Geraldino, Dilsinho, Nerival e Rossi) e seis atleticanos (Marcial, William, Procópio, Luiz Carlos, Fifi e Dinar) e a apresentação foi programada para o dia 15 de fevereiro.

Assim, os jogadores mal tiveram tempo para comemorar o inédito título nacional e começaram os preparativos para a decisão do estadual. O primeiro jogo aconteceu no domingo, dia 10 de fevereiro, e terminou com a vitória cruzeirense por 1 a 0. Na quarta-feira, à noite, dia 13, o Galo venceu por 2 a 1 e o resultado obrigou a realização de uma terceira partida. Os clubes tentaram convencer o treinador Aymoré Moreira a protelar a apresentação para após a partida, no domingo, dia 17, mas o técnico foi irredutível e exigiu a presença dos 11 atletas na data marcada na Colonia de Ferias do Sesc, em Belo Horizonte. Assim, os rivais voltaram a campo dois dias depois, na noite de sexta-feira, para decidir o título. Após um empate em 1 a 1 no tempo normal, o jogo foi decidido na prorrogação com um gol que saiu numa cobrança de escanteio do atacante Toninho, que contou com a falha de todo o sistema defensivo do Cruzeiro. Foi o primeiro título estadual decidido na prorrogação. Horas após o clássico, os jogadores se apresentaram à Seleção Brasileira.

OS CAMPEÕES DA ERA INDEPENDENCIA

1950
Campeão: Atlético
Vice: Siderúrgica
*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Atlético venceu ambos e sagrou-se o campeão. O Siderúrgica, de Sabará, foi o vice-campeão por causa da soma geral dos pontos nos dois turnos.

1951
Campeão: Villa Nova
Vice: Atlético
*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Villa Nova venceu o primeiro turno e o Atlético, o segundo. O Villa derrotou o Atletico na série decisiva de três partidas e ficou com o título.

1952
Campeão: Atlético
Vice: Siderúrgica

*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Atlético venceu ambos e sagrou-se o campeão. O Siderúrgica, de Sabará, foi o vice-campeão por causa da soma geral dos pontos nos dois turnos.


1953
Campeão:  Atlético
Vice:  Villa Nova
*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Atlético venceu o primeiro turno e o Villa, o segundo. O Atlético derrotou o Villa na série decisiva de três partidas e ficou com o título

1954
Campeão:  Atlético
Vice:  Cruzeiro
*Campeonato dividido em três turnos distintos com cada um valendo 10 pontos. O Atletico venceu o primeiro turno (somou 10 pontos) e o Cruzeiro, o segundo e o terceiro (somou 20 pontos). Ambos disputaram uma série decisiva até 25 pontos com cada vitória valendo 5 pontos e o empate 2,5 pontos. Assim, com duas vitórias no primeiro e no segundo jogo o Atlético empatou a serie em 20 pontos. O terceiro jogo terminou empatado e ambos somaram 22,5 pontos. Com a vitória no quarto jogo, o Atlético ficou com o título.

1955
Campeão:  Atlético
Vice:  Democrata-SL
*Campeonato dividido em três turnos distintos. O Villa Nova conquistou o primeiro turno, o Democrata-SL, venceu o segundo e o Atlético, o terceiro. Os três disputaram o título num triangular final em turno e returno. Por ter somando maior numero de pontos nesta fase, o Atlético sagrou-se campeão.

1956
Campeões: Atlético/Cruzeiro
*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Atlético venceu o primeiro turno e o Cruzeiro, o segundo. Na série decisiva ocorreram dois empates e o último jogo terminou com a vitória do Atlético. O Cruzeiro recorreu ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva e ganhou os pontos do empate no segundo jogo por ter o Atlético escalado o lateral Laércio que estava com a inscrição irregular no clube alvinegro. Assim a decisão ficou empatada e uma quarta partida foi programada pela Federação Mineira de Futebol, que acabou não acontecendo. É que o Atlético recorreu a outras instâncias saindo-se derrotado nos tribunais. Em março de 1959 os clubes aceitaram a proposta de dividir o título e o ano teve dois campeões.

1957
Campeão: América
Vice: Democrata-SL
*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Democrata-SL venceu o primeiro turno e o América, o segundo. O América derrotou o Democrata na série decisiva de três partidas e ficou com o título.

1958
Campeão: Atlético
Vice: América
*Campeonato dividido em dois turnos distintos. O Atlético venceu o primeiro turno e o América, o segundo. O Atlético derrotou o América na série decisiva e ficou com o título.

1959
Campeão: Cruzeiro
Vice: América
*Este ano a fórmula dos pontos corridos retornou, após 10 anos. Foi disputado em turno e returno.

1960
Campeão: Cruzeiro
Vice: Siderúrgica
*fórmula dos pontos corridos em turno e returno.

1961
Campeão: Cruzeiro
Vice: América
*fórmula dos pontos corridos em turno e returno.

1962
Campeão: Atletico
Vice: Cruzeiro
*fórmula dos pontos corridos em turno e returno. Cruzeiro e Atlético terminaram o campeonato com a mesa soma de pontos e como não havia critérios de desempate fizeram a decisão do título numa série decisiva. Após a vitória do Cruzeiro no primeiro jogo e do Atlético no segundo jogo, a decisão foi para o terceiro jogo que terminou empatado no tempo normal. O Atlético levou o título ao vencer na prorrogação.

1963
Campeão: Atlético
Vice: Democrata-SL
*fórmula dos pontos corridos em turno e returno.

1964
Campeão: Siderúrgica
Vice: América
*fórmula dos pontos corridos em turno e returno.

1965
Campeão: Cruzeiro
Vice: América
*fórmula dos pontos corridos em turno e returno. O turno foi disputado no Independência e o returno no Mineirão.

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