segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Os 15 anos da conquista surpreendente da Libertadores



Foto: Humberto Nicoline/Hoje em Dia
O zagueiro-capitão Wilson Gottardo levanta a taça mais importante das Américas.
A conquista do título em 1997 pelo Cruzeiro foi o resultado da maior reação de
uma equipe na história da competição

Por Henrique Ribeiro

O dia 13 de agosto é para muitos supersticiosos uma data de mau agouro, pois reúne o número do azar com o mês do desgosto. Mas foi nesta data, há 15 anos, que a nação cruzeirense comemorou o título da Taça Libertadores de 1997, após a vitória por 1 a 0 sobre o Sporting Cristal, do Peru, no Mineirão. O título, além de surpreendente, é reconhecido pela Confederação Sulamericana de Futebol como a maior reação de uma equipe na história da Libertadores. Isto porque o time estrelado teve um início desastroso com três derrotas consecutivas e foi dado como eliminado pelos analistas da bola. Quando somente a sua torcida acreditava, reagiu, surpreendeu a todos os prognósticos negativos e terminou a competição dando a volta olímpica com a taça mais importante das Américas.

O Cruzeiro já chegou a disputa da Taça Libertadores de 1997 de maneira surpreendente. Classificou-se para o Campeonato Sulmericano como campeão da Copa do Brasil de 1996, ao derrotar o favoritismo do Palmeiras, em pleno estádio Palestra Itália. Os paulistas, na ocasião, eram patrocinados por uma multinacional italiana e reunia um plantel de jogadores galáticos que eram considerados imbatíveis em seus domínios.

A base do time campeão da Copa do Brasil de 1996 foi mantida e a diretoria cruzeirense trouxe apenas três reforços para o plantel. O atacante Reinaldo, que estava no futebol italiano, foi repatriado. O meia Elivelton veio do Palmeiras, após o clube estrelado ganhar a disputa nos bastidores contra o rival Atlético. Por último, a diretoria estrelada investiu pesado para tirar o atacante Alex Mineiro do América por R$ 1,2 milhões. A negociação foi a maior entre clubes mineiros, na ocasião, e superou a compra do volante Gutemberg, que também era do Coelho, e que custou R$ 1 milhão aos cofres atleticanos.

O treinador Levir Culpi havia acertado a sua transferência para o futebol japonês e a diretoria cruzeirense resolveu investir na renovação. O maior ídolo da história do clube, o craque Tostão, que nunca havia tido experiência no comando de uma equipe foi convidado a iniciar a carreira de técnico. Tostão recusou, mas o ex-zagueiro da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1982, Oscar Bernardi, que também nunca havia treinado nenhuma equipe, foi a próxima aposta. Oscar encarou o desafio.
Foto: Hoje em Dia
Inicio da campanha foi desastrosa e começou com uma derrota para 
o Grêmio no Mineirão

No entanto a experiência com o novo treinador terminou na estreia da equipe na Taça. O primeiro adversário do Grupo 4 foi o Grêmio, que era o atual campeão brasileiro. Os tricolores venceram por 2 a 1, no Mineirão e, após o jogo, Oscar Bernardi, que nem havia completado dois meses no cargo pediu demissão. O treinador alegou que as críticas internas ao seu trabalho o fizeram tomar a decisão. A diretoria agiu rápido e repatriou o técnico Paulo Autuori, que estava no Benfica, de Portugal.

Sob novo comando, o time não se encontrou e sofreu mais duas derrotas pelo placar de 1 a 0. A primeira foi para o Alianza, em Lima, no Peru, com um gol do atacante Waldir Sáenz, que se tornaria o maior goleador da história do clube aliancista. O outro revés do Cruzeiro foi para o Sporting Cristal, também, em Lima. Os resultados deixaram o Cruzeiro na lanterna do grupo quatro.

O início desastroso fez com que os analistas de futebol consumassem de forma antecipada a eliminação precoce do Cruzeiro na Taça. Isto porque a equipe estrelada teria que derrotar o Grêmio, que atravessava uma grande fase, em pleno estádio olímpico, onde o Cruzeiro havia enfrentado o tricolor em outras 14 oportunidades e nunca havia vencido. E foi justamente no estádio gremista, que o Cruzeiro deu início a sua reação monumental e uma das campanhas mais épicas de sua história. Um gol relâmpago antes da primeira volta do ponteiro, no segundo tempo, deu a vitória suada de 1 a 0 ao Cruzeiro e pôs fim ao tabu. O meia Elivelton passou pela marcação da dupla da seleção paraguaia, o lateral Arce e o zagueiro Rivarola e, da linha de fundo, cruzou para a pequena área. O meia Palhinha mergulhou, de peixinho, e mandou para as redes.
Foto: Humberto Nicoline/Hoje em Dia
Lance da vitória do Cruzeiro sobre o Alianza, no Mineirão.
O atacante Ailton cabeceia a bola observado de perto pelo
atacante Reinaldo

No penúltimo compromisso da primeira fase, o Cruzeiro derrotou o Alianza, no Mineirão, por 2 a 0, e deixou a lanterna do grupo 4 para os peruanos. O trágico acidente aéreo que vitimou todo o plantel e a comissão técnica do clube aliancista completava 10 anos naquela Libertadores. Após a Taça, o Alianza venceria o título peruano, após 18 anos de sua última conquista, ressurgindo como o time mais vencedor do futebol daquele país.

Na última rodada o Cruzeiro passou pelo Sporting Cristal, no Mineirão, com uma vitoria por 2 a 1 e garantiu a segunda colocação do grupo e a classificação para as oitavas de final.
Foto: Cristiano Machado/Hoje em Dia
O El Nacional ofereceu muita resistência ao Cruzeiro, de Elivelton (foto), 
no Mineirão. Vaga só foi definida na disputa de tiros livres

O primeiro adversário da fase dos mata-matas foi o El Nacional, que naquele ano, ainda era restrito as forças armadas do Equador. Na altitude de Guaiaquil o Cruzeiro saiu derrotado por 1 a 0. Naquele jogo, o time estrelado estreou os novos reforços: o atacante Marcelo Ramos, que foi um dos heróis da conquista da Copa do Brasil de 1996 e que estava no PSV da Holanda e o zagueiro Gottardo, que veio do Fluminense para assumir a faixa de capitão do time.No jogo da volta, no Mineirão, o Cruzeiro suou para fazer o placar de 2 a 0, com um gol de Marcelo Ramos, aos 24 minutos do segundo tempo. Quando todos acreditavam que a classificação estava consumada, o El Nacional conquistou um gol de falta no último instante da partida e a vaga ficou para ser decidida na disputa de tiros livres. E foi a partir daí que o goleiro Dida começou a se consagrar como um dos heróis da conquista. Na disputa por tiros livres, o camisa um defendeu a cobrança de Kleber Chalá e garantiu a vitória por 5 a 3 e a classificação.

Nas quartas de final, o Cruzeiro enfrentou, novamente, o Grêmio. A primeira partida foi no Mineirão e o Cruzeiro saiu na frente, logo aos 40 segundos de jogo, com um gol de Elivelton. Alex Mineiro ampliou ainda no primeiro tempo e o jogo terminou em 2 a 0 para o time estrelado. O jogo teve como destaque as trocas de agressões e provocações do lateral esquerdo Roger, do Grêmio e do meia, Cleison, do Cruzeiro.

No jogo da volta, no Olímpico, o Cruzeiro anulou a reação do Grêmio e aos 15, do segundo tempo, num lançamento de Alex, o volante Fabinho, mesmo lesionado e mancando, matou a bola no peito e sem deixá-la cair, completou para as redes: um golaço. Com o gol, que aumentou o placar agregado em 3 a 0, a classificação cruzeirense parecia garantida, mas como foi toda a trajetória do time cruzeirense naquele Libertadores, o jogo ainda reservaria seus requintes de dramaticidade em sua meia hora final. O Grêmio reencontrou forças e virou o jogo para 2 a 1, aos 27 minutos e por pouco não marcou o terceiro gol, que levaria a decisão para as penalidades, no último minuto, numa cabeçada do zagueiro Mauro Galvão, que raspou a trave.

O adversário da semifinal foi o Colo Colo, que havia conquistado o 20º título chileno de sua história. No primeiro jogo, no Mineirão, o Cruzeiro venceu por 1 a 0, com um gol de Marcelo Ramos, logo aos 6 minutos, que começou numa falha do goleiro Marcelo Ramírez, que saiu fora da área e acabou desarmado pelo meia Cleison, que lhe tomou a bola e cruzou para o atacante completar de cabeça tendo o gol vazio a sua frente. Ramírez foi goleiro que, na decisão da Recopa de 1992, contra o Cruzeiro, substituiu o goleiraço Daniel Morón e deu o título do troféu aos caciques na decisão por pênaltis.
Foto: Sergio Falci/Hoje em Dia
O atacante Marcelo Ramos no momento em que completava de cabeça
a jogada de Cleison que resultou no gol da vitória sobre o Colo Colo, no Mineirão

O jogo da volta teve os 90 minutos mais dramáticos de toda a campanha cruzeirense. Os chilenos viviam uma grande fase e consideravam o jogo, em Santiago, como a final antecipada. O Colo Colo abriu a vantagem de 3 a 1, no segundo tempo. No entanto, o Cruzeiro reencontrou forças e diminuiu o marcador, aos 18 minutos, quando o meia Cleison apanhou, de carrinho, um rebote do goleiro Ramírez, após uma cobrança de falta de Marcelo Ramos. A derrota por 3 a 2 provocou a decisão por tiros livres, que foi a mais tranquila da história do clube, graças a eficiência do goleirão Dida, que defendeu as cobranças de Basay e Espina. O Cruzeiro venceu por 4 a 1 e foi para a final.

Com a classificação garantida no Chile, o Cruzeiro chegava a uma final de Libertadores, após 20 anos, quando perdeu o título na decisão por tiros livres para o Boca Juniors, da Argentina, após um empate sem gols na terceira partida, disputada em campo neutro, em Montevidéu, no Uruguai.

O encontro decisivo da Libertadores de 1997 reuniu os dois times mais surpreendentes da competição. O Sporting Cristal, que se classificou como terceiro colocado do Grupo 4, da primeira fase, tornou-se a grande zebra da Taça. Os cervezeros eliminaram os argentinos Velez Sarsfield, nas oitavas de final e o Racing, na semifinal, vencendo ambos dentro de Buenos Aires. Por outro lado, o Cruzeiro chegava a uma decisão com uma das campanhas mais irregulares da história da Taça, com um total de seis derrotas. Nunca um finalista havia perdido tantos jogos.

A base do time peruano jogava junto desde 1994 e eram os atuais tricampeões peruanos. Até os dias atuais o time de 1997 é considerado como o melhor da história do Cristal e a maioria dos jogadores que formaram aquele plantel estão na galeria dos maiores ídolos do clube cervezero.

O primeiro jogo da decisão aconteceu em Lima, no Peru, onde o Sporting Cristal não sofria uma derrota há quatro anos pela Libertadores. A partida foi marcada pelo equilíbrio e a forte marcação imprimida pelas equipes. Com poucas chances de gol, o jogo terminou com o placar zerado.
Foto: Hoje em Dia
O meia Palhinha foi o maestro do time campeão da Libertadores de 1997
Ao fundo da foto estão o volante Donizete e o zagueiro Gelson

No jogo da volta, mais de 100 mil cruzeirenses lotaram o Mineirão com a confiança de que o time venceria facilmente os peruanos. A partida marcou as despedidas do treinador Paulo Autuori que entregou o cargo por causa das mesmas pressões internas que derrubaram o seu antecessor Oscar. Foi também a última partida do armador Palhinha, que havia sido negociado ao futebol espanhol.

Apesar da pouca tradição do adversário, o Cruzeiro quase foi surpreendido. Aos 20 minutos do segundo tempo Donizete comete falta em Alfredo Carmona na intermediária. Na cobrança forte e rasteira de Nolberto Solano, Dida foi no canto esquerdo e fez a defesa, Julinho entrou rápido na área e apanhou o rebote com um chute cruzado, mas Dida defendeu com o pé direito.

Dez minutos após o susto, o Cruzeiro chegou ao gol da vitória. E foi com um tento surpreedente, como foi a característica de toda a campanha do título. Numa cobrança de escanteio de Nonato, a defesa do Cristal rebateu para fora da área. O canhoto Elivelton, que foi escalado na vaga de Cleison, que havia sido expulso no primeiro jogo da decisão, apanhou o rebote, de pé direito e o goleiro Julio Cesar Balerio aceitou. A bola passou por baixo do corpo do camisa 1 e entrou no canto direito. Foi o único gol do Cruzeiro marcado num chute de fora da área em toda a campanha. Após a partida, as ruas da capital e das cidades do interior foram tomadas pelos cruzeirenses que comemoraram um título dado como perdido e que entrou para a história das conquistas surpreendentes do clube estrelado.

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