quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Adeus, doutor da bola


Num clássico contra o América, no Barro Preto,
Amauri está no canto esquerdo da foto observando
a disputa de uma bola pelo alto

Por Henrique Ribeiro

Faleceu na manhã de hoje (6 de setembro de 2012), aos 79 anos, de câncer, o ex-volante do Cruzeiro, Amaury de Castro, o doutor da bola. Ele foi um dos destaques do time tricampeão mineiro de 1959, 1960 e 1961, que além dele ainda tinham outros grandes jogadores como Vavá, Geraldino, Procópio e Hilton Oliveira. Nos tempos em que jogador de futebol não era uma profissão lucrativa, Amaury conciliava o esporte com a profissão de médico, que exerceu até os últimos dias de vida em sua clínica no bairro Carlos Prates, em Belo Horizonte.

Amauri nasceu em Carmópolis de Minas, em 1 de dezembro de 1932. Começou a jogar no time do Nacional, que era formado por ex-alunos do Colégio Arnaldo. Após uma cisão no clube foi para o juvenil do América com outros jogadores do time. Quando estourou a idade não quis se profissionalizar, porque a sua prioridade eram os estudos. Foi para o Paisandu, que disputava o Campeonato Mineiro de aspirantes contra os grandes da capital e após um ano aceitou o convite para jogar no Sete de Setembro, mas como amador.

"Eu nunca tive passe preso. Se impusesssem, eu não assinava. Exigia uma cláusula no contrato (que nunca precisei usar) de que os treinos, concentração e viagens, não atrapalhassem meus estudos. A minha prioridade era o curso de medicina", explicava.

Quando o seu contrato com o Sete encerrou em 1957 foi convidado a jogar no Cruzeiro, onde ficou até 1962 e foi o maior destaque do time tricampeão estadual de 1959, 1960 e 1961. Amauri foi um dos principais jogadores do time do Cruzeiro que conquistou o tricampeonato mineiro de 1959, 1960 e 1961. Os títulos tiraram o clube de uma época de jejum, que durava desde o tricampeonato de 1943, 1944 e 1945. Foi eleito o craque medalha por três anos consecutivos na promoção do Diário da Tarde.

"O Cruzeiro tricampeão não era um time de craques, mas tinha conjunto. Nelsinho foi o meu melhor parceiro de meio de campo. Ele gostava de jogar plantado e eu me movimentava mais. Ele falava comigo, "vai doutor". Quando ía a frente e marcava um gol ele dizia: "Não falei?", recordava o jogador que marcou 38 gols em 233 partidas com a camisa cruzeirense.

Encerrou sua carreira em 1962, quando passou a dedicar-se a carreira de médico pediatra. Como o time caiu de produção a cinco rodadas do fim do Campeonato de 1961, o técnico Geninho pediu a sua volta. Após o título encerrou de vez a carreira e passou a jogar futebol somente no time do Raposão (formado por ex-jogadores do Cruzeiro), onde atuou por oito anos.

No time de 1958, o Amauri é o último em pé da esquerda para a direita

"O Cruzeiro nunca atrasou pagamento. O Nicola Calichio (diretor do clube) sempre foi muito correto comigo. Precisava do dinheiro pra pagar meus estudos. Quando chegava a data do acerto e o clube não tinha dinheiro, o Nicola me avisava pra passar em sua padaria, onde ele me pagava. Acredito que ele tirava do próprio bolso", recordava.

O jogador recusou convites para se transferir para o Fluminense e o São Paulo. "O Cruzeiro me dava liberdade para estudar medicina. O futebol naquela época não dava garantia nenhuma", explicava. Ele formou-se em Medicina pela UFMG. Em seus tempos de jogador do Cruzeiro assinava um coluna de futebol intitulada "Doutor da Bola" no jornal Estado de Minas.

Ao contrário de muitos atletas, Amaury não fez amizades no mundo do futebol. "Nunca fui da boleiragem. Não tinha tempo por causa dos estudos e atendia os pacientes no consultório do meu pai. Eu era instruído, fazia medicina, mas os jogadores gostavam de mim, sempre eram brincalhões, me tratavam muito bem", recordava.

Habilidoso, técnico e bom marcador, Amauri chamava a atenção por ser um meio-campista que não utilizava do jogo violento e das faltas. "Recebi o prêmio Belfort Duarte (concedido pelo Conselho Nacional do Desporto-CND aos atletas que permaneciam mais de 100 jogos sem serem expulsos de campo). Nunca fui expulso e sequer citado em súmula pelos árbitros", gabava-se o volante que recebeu o prêmio em 1957.

Após encerrar a carreira tornou-se conselheiro nato do Cruzeiro. Era casado com Moema Augusta com quem teve três filhos: Lília, Cássio e Guilherme.

*as aspas são de uma entrevista que fiz com Amauri de Castro, no dia 15 de junho de 2012, quando o levamos ao Independência para uma matéria sobre o estádio.

twitter: @henriqueribe
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