sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Na revanche contra o River Plate, uma classificação monumental

Foto: Hoje em Dia
O zagueiro Luizinho numa dividida com Leonardo Astrada. Ao fundo
os meias Luiz Fernando e Boiadeiro

Por Henrique Ribeiro

Após superar o Atletico Nacional, da Colômbia, o próximo adversário do Cruzeiro foi o River Plate, que havia eliminado o Argentinos Juniors, pela chave quatro, com duas vitórias por 2 a 1 e 3 a 0. Os "millonarios" ostentavam o título de campeão argentino de 1991 e, no atual campeonato, figuravam na vice-liderança. Avisaram que não estavam priorizando nenhuma das duas competições, ou seja, queriam ganhar as duas. Mais do que isso pretendiam vingar a perda do título da Supercopa de 1991, que ainda não haviam digerido. Pela qualidade das duas equipes, o confronto foi encarado como uma final antecipada.

Assim como o Cruzeiro, o plantel do River estava bem modificado em relação ao que disputou a Supercopa do ano anterior com as saídas de Borelli, Gordillo, Rivarola, Higuaín e Carlos Enrique, mas ainda assim mantinha um grupo de selecionáveis. Cinco atletas haviam participado da seleção argentina campeã da Copa America de 1991: Basualdo, Astrada, Zapata, Medina Bello e Altamirano. Este último foi contratado como reforço para a temporada, junto ao Independiente. Mas, no primeiro confronto, contra o Cruzeiro, no Mineirão, dois deles não puderam participar: os laterais Basualdo e Altamirano. Ambos estavam servindo a Seleção Argentina na Copa Rei Fahd, na Arábia Saudita. A competição foi a precursora da atual Copa das Confederações.

Para primeiro jogo, o treinador Jair Pereira ressaltou que o Cruzeiro partiria para o abafa e que o objetivo era decidir a partida nos primeiros minutos. Prometia um meio de campo flutuante, sem nenhum jogador do setor guardando posição. A diretoria prometeu uma premiação de US$ 1,5 mil (Cr$ 12 milhões) para cada jogador pela classificação. Renato Gaúcho que era o único do grupo que fazia parte da Seleção Brasileira, não temia uma marcação especial dos argentinos. “Não vai adiantar. Na fase em que estou dá impressão que faço aniversário todos os dias. O pessoal vive me abraçando”, brincou se referindo a série de gols que vinha marcando nas partidas pela Supercopa e pelo Estadual.

O meio-campista Zapata, assim que chegou a Belo Horizonte, declarou: “o River não vai mudar a sua forma de jogar. Vamos fazer o de costume quando atuamos como visitante. Faremos pressão em todo o campo, esperando o adversário lá atrás, para tentar surpreender nos contra ataques”.

Os argentinos estavam preocupados com o forte calor na cidade, mas uma chuva no início da noite amenizou o clima. No primeiro tempo, o Cruzeiro teve dificuldades para superar a marcação do River. A primeira chance surgiu aos 10 minutos, quando Luiz Fernando quase abriu o marcador. Logo, o Cruzeiro descobriu que as tabelas rápidas eram a melhor forma de superar a marcação adversária. E foi numa delas entre Luiz Fernando e Betinho, aos 29 minutos, que Renato Gaúcho foi lançado na área e derrubado por Astrada. O pênalti foi marcado e o lateral direito Paulo Roberto converteu sacudindo a nação cruzeirense no Mineirão.

No lance do pênalti, Renato Gaúcho sofreu um estiramento na panturrilha, mas permaneceu em campo. O gol desequilibrou o time do River, que passou a apelar para faltas violentas. Aos 31 minutos, Astrada foi expulso ao atingir Luizinho.

Aos 37 minutos, o River perdeu o seu atacante Ramón Diaz. Ele chocou-se de cabeça com o volante Douglas. Sentiu tonturas e foi levado para o Hospital Felício Rocho com suspeita de traumatismo craniano. Três minutos depois, os argentinos tiveram o melhor momento no jogo, quando acertaram a trave defendida por Paulo César.

No intervalo, Passarela trocou o meia Da Silva pelo atacante Silvani. A modificação deu mais ímpeto ao River, que mesmo com um jogador a menos se arriscou mais ao ataque. Aos 9 minutos, Renato Gaúcho não suportou as dores e saiu para a entrada de Cleison. A modificação tornou  o time mais lento e o River equilibrou o jogo.

O panorama mudou com a saída de Betinho para a entrada de Roberto Gaúcho, aos 15 minutos. O ponteiro Édson foi deslocado para o meio de campo. Roberto Gaúcho incendiou o jogo. Criou três chances seguidas. Na primeira acertou a trave, na segunda o goleiro Comizzo salvou um gol certo e na terceira, o zagueiro Cocca tentou desviar uma cabeceio do ponteiro cruzeirense e mandou a bola contra o próprio gol. O Cruzeiro ainda criou mais chances para ampliar, mas o jogo terminou com a vitória estrelada por 2 a 0.
Marco Antônio Boiadeiro em um lance da partida no Mineirão
marcado de perto por Fernando Cáceres

"O Cruzeiro sofreu na Argentina um pesadelo de olhos abertos". Assim definiu o cronista Roberto Drummond sobre os incidentes no estádio Monumental de Nuñez. O prenúncio de que os argentinos tratariam a partida de volta como uma guerra começou com a exigência da diretoria "millonaria" de uma cota de US$ 500 mil (Cr$ 4,2 bilhões) para ceder a transmissão do jogo para o Brasil. A Rede Bandeirantes que transmitia as partidas da Supercopa considerou o valor inviável e os cruzeirenses tiveram que acompanhar o drama do time pelas emissoras de rádio.

Outra medida tomada pela diretora do River foi reduzir os preços dos ingressos para a torcida lotar o estádio. Assim, o preço do setor mais caro no Monumental passou a ter o valor do mais barato: US$ 20 (Cr$ 170 mil). E o bilhete do setor mais barato foi reduzido para US$ 7 (Cr$ 60 mil).

O Cruzeiro solicitou as presenças no estádio do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e da Federação Mineira, Elmer Guilherme, temendo as hostilidades. Durante a semana, os jogadores do Cruzeiro reclamaram do abuso das faltas violentas cometidas pelos jogadores do River na partida, no Mineirão. “Vou colocar caneleiras na parte da frente e de trás das duas pernas”, ironizava o ponta esquerda, Roberto Gaúcho. "Se baterem, vamos bater também", avisava Renato Gaúcho, que sentia a panturrilha e era dúvida para o jogo. "Espero jogar nem que seja gessado!", dizia.

O meia Boiadeiro adiantou, durante a semana, como seria a estratégia para conseguir a classificação. “Eles terão que sair pro jogo em busca dos gols e vamos explorar os contra-ataques. Vamos tocar a bola para irritá-los", avisava.

As hostilidades começaram, assim que o ônibus que levava a delegação do Cruzeiro chegou ao estádio. Foi logo cercado por torcedores do River que tentaram tombá-lo sendo impedidos pela polícia. Na entrada para os vestiários o time foi alvejada por cadeiras. No vestiário atiraram bombas. E quando o time entrou em campo, uma pedra atingiu o nariz do atacante Roberto Gaúcho, que levou três pontos.

No primeiro tempo o Cruzeiro soube administrar a vantagem obtida no Mineirão. O River partiu para o abafa, mas o time estrelado soube explorar os contra-ataques acionando Roberto Gaúcho pelo lado esquerdo. Num dos lances criados pelo ponta, Betinho quase marcou. A partir dos 20 minutos, o Cruzeiro equilibrou o jogo e criou as melhores chances na partida. O zagueiro Cáceres chegou a salvar, em cima da linha, uma bola chutada por Roberto Gaúcho.

No segundo tempo, o Cruzeiro continuou mais perigoso e criou duas chances para abrir o placar. Aos 25 minutos, Roberto Gaúcho quase marcou, mas Cáceres, novamente, salvou o gol tirando a bola em cima da linha. O goleiro Comizzo ainda faria uma bela defesa num chute de Luiz Fernando.

No entanto, o árbitro chileno Henrique Marín entrou em cena nos quinze minutos finais ao aplicar vários cartões amarelos para os jogadores cruzeirenses. Aos 35 minutos, ele expulsou o zagueiro  Luizinho pela demora em cobrar um tiro de meta. O treinador Jair Pereira então sacou o meia Betinho e promoveu a entrada de Adilson para recompor a defesa. Mas em seu primeiro lance na partida, Adilson foi atingido violentamente por Da Silva. No lance, o jogador voltaria a fraturar a mesma perna, que o deixou seis meses afastado do futebol. Antes havia sofrido a mesma lesão na decisão da Recopa, em abril, contra o Colo Colo. O meia Boiadeiro levou o cartão vermelho, logo em seguida, ao reclamar de uma agressão sofrida por um jogador do River.

Com oito jogadores em campo, o Cruzeiro recuou em seu campo e resistiu a pressão do River. Mas o árbitro, Henrique Marín assinalou um pênalti inexistente, aos 44 minutos, que foi convertido por Ramón Diaz. Um minuto depois, ele marcaria outra penalidade. Ramon Diaz cobrou, o goleiro Paulo César defendeu, mas o atacante Walter Silvani apanhou o rebote e ampliou para 2 a 0.

O resultado obrigou as equipes a disputarem a vaga na decisão por tiros livres. Ramón Diaz desperdiçou a última cobrança da série do River e o volante Douglas converteu a última do Cruzeiro, que deu a vitória por 5 a 4.

Após o apito final, alguns torcedores invadiram o campo e se misturaram aos jogadores do River. A torcida passou a arremessar objetos nos jogadores na saída de campo. Quando se dirigia aos vestiários, o volante Rogério Lage foi agredido por um torcedor e o preparador físico Luiz Inarra revidou. A polícia impediu que uma briga generalizada ocorresse.

Na chegada ao Brasil, o presidente da Federação Mineira, Elmer Guilherme, anunciou que iria a Confederação Sulamericana pedir a interdição do estádio do River e a eliminação de Henrique Marin do quadro de arbitragens. Elmer também criticou a omissão do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que prometeu, mas não compareceu a partida. Roberto Gaúcho relatou a conivência do árbitro chileno. “Os jogadores do River deram socos, cotoveladas e Marin não puniu ninguém”. Devido aos incidentes, o Monumental de Nuñez foi suspenso para jogos internacionais por um período de seis meses.

Diante de todas as circunstâncias, contra tudo e contra todos, o Cruzeiro conquistou sua classificação para a semifinal de forma "monumental".

CRUZEIRO 2 x 0 RIVER PLATE (ARG)
21/10/1992 (Qua-21h30) - Supercopa (quartas de final/Chave 2/1ª) - Mineirão
Público: 66.090 (Cr$ 1.036.670.000,)
Arbitragem: Juan Francisco Escobar/PAR (Carlos Maciel/PAR e Felix Benegas/PAR)
Gols: Paulo Roberto (pênalti) 29’, Cocca (contra) 65’
CRUZEIRO: 1-Paulo César; 2-Paulo Roberto, 4-Célio Lúcio, 3-Luizinho e 6-Nonato; 8-Douglas, 10-Boiadeiro e 9-Betinho (11-Roberto Gaúcho/60’) e 17-Luiz Fernando; 7-Renato Gaúcho (14-Cleison/54’) e 16-Édson. T: Jair Pereira
Suplentes: 12-Gilberto, 22-Adilson, 21-Rogerio Lage
RIVER PLATE: 1-Angel Comizzo; 13-Alfonso Domínguez, 2-Fernando Cáceres, 6-Jorge Balbis e 16-Diego Cocca; 8-Gustavo Zapata, 5-Leonardo Astrada, 14-Hernán Diaz e 10-Rubén Da Silva (20-Walter Silvani/46’); 7-Ramón Medina Bello e +9-Ramón Díaz (15-Javier Claut/37’). T: Daniel Passarella
Suplentes: 12-Adolfo Zeoli, 11-Julio César Toresani, 21-Jorge Vázquez
CA: Paulo Roberto, Nonato (Cruzeiro); Hernán Diaz (River)
CV: Leonardo Astrada/31’ (River)
*River desfalcado de Fabian Basualdo e Ricardo Altamirano que estavam servindo a Seleção Argentina na Arábia.

CRUZEIRO 0 x 2 RIVER PLATE (ARG)
28/10/1992 (Qua-21h30) - Supercopa (quartas-de-final/Chave 2/2ª) - Monumental de Nuñez (Buenos Aires, Argentina)
Renda: 317.970 pesos
Arbitragem: Enrique Marín/CHI (Ivan Guerrero/CHI e Carlos Robles/CHI)
Gols: Ramón Díaz (pênalti) 87’, Walter Silvani 89’
CRUZEIRO: 1-Paulo César; 2-Paulo Roberto, 4-Célio Lúcio, 3-Luizinho e 6-Nonato; 8-Douglas, 10-Boiadeiro, 17-Luiz Fernando e 9-Betinho (22-Adilson/81’+83’); 7-Renato Gaúcho e 11-Roberto Gaúcho (16-Édson/82’). T: Jair Pereira
Suplentes: 12-Gilberto, 14-Cleison, 21-Rogério Lage
RIVER PLATE: 1-Angel Comizzo; 4-Fabián Basualdo, 3-Fernando Cáceres, 16-Diego Cocca e 3-Ricardo Altamirano; 8-Gustavo Zapata, 15-Javier Claut (11-Julio César Toresani/69’) e 10-Rubén Da Silva; 7-Ramón Medina Bello, 9-Ramón Díaz e 19-Ariel Ortega (20-Walter Silvani/46’). T: Daniel Passarella
Suplentes: 12-Adolfo Zeoli, 6-Jorge Balbis, 21-Jorge Vázquez
CA: Luiz Fernando, Renato Gaúcho, Nonato, Paulo César, Roberto Gaúcho, Douglas (Cruzeiro); Basualdo, Cáceres (River)
CV: Luizinho/80’, Boiadeiro/84' (Cruzeiro)
Tiros livres: Cruzeiro 5 a 4 (Walter Silvani 0 a 1; Paulo Roberto 1 a 1; Rubén Da Silva 1 a 2; Nonato 2 a 2; Ramón Medina Bello 2 a 3; Roberto Gaúcho 3 a 3; Gustavo Zapata 3 a 4; Luiz Fernando 4 a 4; Ramón Díaz perdeu 4 a 4; Douglas 5 a 4)

twitter: @henriqueribe
www.facebook.com.br/almanaquedocruzeiro

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