sexta-feira, 17 de maio de 2013

Nos tempos em que se andava com fé a caminho do título

O time do Cruzeiro de 1940 (ainda como Palestra Italia)

Por Henrique Ribeiro

A primeira decisão direta entre Cruzeiro e Atlético foi pelo Campeonato da Cidade de 1940. Assim como acontece em 2013, em que o Independência tornou-se o estádio atleticano e, o Mineirão, o estádio cruzeirense, os rivais exerceram seus mandos de campo em seus próprios domínios naquela grande final. O estádio alvinegro era em Lourdes e o do Cruzeiro, no bairro vizinho, no Barro Preto. Ambos não existem mais. Eram outros tempos. Longe das mordomias e dos cuidados com a segurança dos dias atuais, os jogadores dormiam no próprio estádio antes das partidas e seguiam a pé, em meio aos torcedores, para jogar no campo rival.

O Campeonato da Cidade de 1940 seguiu a fórmula dos pontos corridos. Como os rivais encerraram a disputa empatados em número de pontos, o título foi decidido numa série de três partidas. Belo Horizonte, que ainda tinha 220 mil habitantes, teve o privilégio de assistir a primeira final entre os times de maiores torcidas. O clássico do turno, no Barro Preto, que terminou empatado em 2 a 2, havia proporcionado a maior renda do certame com mais de 10 contos de réis (moeda da época). Mais da metade da soma das rendas das outras partidas da fase.


O primeiro jogo da final, no dia 29 de dezembro, foi marcado para o estádio do Atlético, onde atualmente está erguido o shopping Diamond Mall. Era acanhado e comportava, no máximo, 10 mil torcedores. No bairro vizinho, no Barro Preto, estavam concentrados os jogadores cruzeirenses. A Toca da Raposa surgiria em 1967 e a concentração eram nos quartos construídos embaixo das arquibancadas do estádio.

Segundo o relato do jornalista Plínio Barreto, que tinha 18 anos, e que assistiu aquela decisão, no dia do jogo "os jogadores saíram uniformizados do estádio do Barro Preto pelo portão da rua Guajajaras (que existe até hoje). Não existia o translado de ônibus, como nos dias atuais, e nem mesmo os batedores da polícia militar. O grupo caminhava a pé até o estádio de Lourdes. Ao virarem a rua Araguari, se misturavam aos torcedores, onde recebiam os primeiros gritos de incentivo. Ao cruzarem a avenida amazonas, seguiam à direita do Colégio Santo Agostinho, na rua Rio Grande do Sul. Ao chegarem no estádio alvinegro entravam pelo portão da rua Gonçalves Dias". 

Mesmo na casa do adversário, o Cruzeiro quase emplacou uma goleada histórica. A partida foi dirigida pelo árbitro Mundico, apelido de Raimundo Sampaio, que se tornaria presidente do Sete de Setembro e levaria o nome oficial do estádio Independência. Foi a última temporada dos dois auxiliares de arbitragem de linha de fundo, que seriam extintos.

O atacante Niginho, que era considerado o maior jogador de Minas, desequilibrou o primeiro clássico decisivo e mostrou porque era o carrasco do Atlético. No primeiro tempo, deu o passe para o ponta esquerda Alcides abrir o placar e ainda marcou o segundo gol, após receber um passe de seu irmão caçula, Orlando. Ele ainda perderia dois gols incríveis antes de marcar o terceiro gol, no segundo tempo. Paulo conquistou o gol de honra dos alvinegros. O estádio de Lourdes foi desapropriado na década de 1960 e, em seguida, desmanchado. Na década de 1990 deu lugar ao Shopping Diamond Mall.

Veio o domingo seguinte, já no ano de 1941, no dia 5 de janeiro. O time atleticano, que também se concentrava em quartos abaixo das arquibancadas de seu estádio, deixou o reduto uma hora antes da partida. Plínio Barreto recorda o exato trajeto que o grupo percorreu até o estádio do Cruzeiro. "Saíram pelo portão da Gonçalves Dias e desceram a rua Rio Grande do Sul. No cruzamento com a rua dos Aimorés, juntaram-se aos torcedores, onde receberam as primeiras palavras de apoio. Ao cruzarem a avenida amazonas seguiam a rua Araguari até o estádio do Barro Preto, onde entraram pelo portão da rua Guajajaras".

Aquela também foi a última temporada das partidas com o tempo regulamentar de 80 minutos. A partir de maio, os jogos de futebol passaram a ter 90 minutos por determinação da FIFA. Neste segundo jogo, o Atlético foi mais objetivo e abriu o placar, logo aos 15 minutos. O ponta-direita Edgard recebeu um passe de Rezende e chutou sem chances para o goleiro Geraldo II. Começava a brilhar na partida a figura dos extremas atleticanos, que se tornariam o destaque do jogo. O Cruzeiro chegou ao empate no final do primeiro tempo, com um gol de cabeça de Dejardes. Mas, na segunda etapa, o ponta Rezende marcou o gol da vitória alvinegra. O estádio do Barro Preto foi desmanchado em 1986 e deu lugar ao parque poliesportivo do clube.

O resultado obrigou a realização de uma terceira partida, em terreno neutro, no estádio do América, que foi desmanchado nos anos 1970. Em seu lugar foi erguido o supermercado Jumbo. Atualmente, é o supermercado extra, na avenida francisco sales, em Santa Efigênia. A decisão serviu para quebrar os tabus que incomodavam os rivais. O Cruzeiro não conquistava o campeonato havia 10 anos e o Atlético, que era o atual bicampeão, era o único dos grandes da cidade que nunca havia sido tricampeão. Esta sequência lhe escapara em duas oportunidades, em 1928 e 1933.

A partida, dia 12 de janeiro de 1941, teve como destaque o veterano Carazo, que criou a jogada do primeiro gol cruzeirense, marcado pelo ponta-esquerda Alcides. Logo ao primeiro minuto do segundo tempo, o Cruzeiro confirmou a vitória quando, num chute forte de Orlando, o goleiro Kafunga rebateu e Niginho, sempre ele, marcou o gol da vitória e do título: Cruzeiro 2 a 0. Foi o último título do Cruzeiro com o seu nome de origem, Palestra Itália. A partir de fevereiro de 1943, após a aprovação de seus novos estatutos pela FMF, passou a atender pelo nome atual.

Após a partida, as duas delegações retornaram, novamente a pé, para os seus respectivos estádios. A do Atlético, triste pela perda de mais um tricampeonato e a do Cruzeiro acompanhando o carnaval dos torcedores até o Barro Preto.


CRUZEIRO 3 x 1 ATLÉTICO
29/12/1940 - Campeonato da Cidade (decisão/1ª) - Lourdes
Árbitro: Mundico
Gols: Alcides (1-0); Niginho (2-0); Niginho (3-0); Paulo (3-1)
Cruzeiro: Geraldo II, Caieira e Bibi; Souza (Carazo), Juca e Caieirinha; Nogueirinha, Orlando, Niginho, Carlos Alberto (Geraldino) e Alcides. T: Bengala
Atlético: Kafunga, Airton e Evando; Cafifa, Jaime e Quirino (Alcindo); Hamilton, Selado (Paulo), Baiano, Nicola e Rezende. T: Said

CRUZEIRO 1 x 2 ATLÉTICO
05/01/1941 - Campeonato da Cidade de 1940 (decisão/2ª) - Barro Preto
Árbitro: Mundico
Gols: Edgar 15’ (0-1); Dejardes 38’ (1-1); Resende (1-2)
Cruzeiro: Geraldo II, Caieira, Bibi, Souza, Juca, Caieirinha, Nogueirinha, Orlando, Niginho, Carlos Alberto (Carazo), Dejardes (Alcides). T: Bengala
Atlético: Kafunga, Linthom, Evando, Cafifa, Jaime, Quirino, Edgar, Baiano, Paulo (Itália), Selado, Resende. T: Said

CRUZEIRO 2 x 0 ATLÉTICO
12/01/1941 - Campeonato da Cidade de 1940 (decisão/3ª) - Alameda
Renda: 15:613$000
Árbitro: Mario Vianna (RJ)
Gols: Alcides (1-0); Niginho 46’ (2-0)
Cruzeiro: Geraldo II, Caieira, Bibi, Souza, Juca, Caieirinha, Nogueirinha, Orlando, Niginho, Carazo, Alcides (Dejardes). T: Bengala
Atlético: Kafunga, Linthom, Evando, Cafifa, Jaime, Quirino, Edgar, Baiano, Paulo (Itália), Selado, Resende. T: Said


Postar um comentário