quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Torneios Malucos (2) - O Barrados no Baile de 1984

Carlos Henrique

Em continuidade a série "torneios malucos" o retratado de hoje é o Heleno Nunes de 1984. Um torneio de consolação que envolveu os grandes clubes eliminados, precocemente, do Campeonato Brasileiro de 84. Foi apelidado de "Barrados no Baile" em referência ao sucesso do cantor Eduardo Dusek. A música era sobre a estória de um casal emergente impedido de entrar numa festa de socialites. Teve como curiosidades os jogos nas manhãs de domingo e a adoção da tabela dirigida. E, como todo torneio sem sentido, se notabilizou pelo fracasso de público.

O critério de participação do Campeonato Brasileiro, naquela época, ainda era definido pelas classificações nos Campeonatos Estaduais. Sem as 1ª e 2ª divisões definidas, como é atualmente, o Brasileirão de 1984 foi disputado por 41 clubes e dividido em três fases de grupos e outras três em mata-matas. Cruzeiro, São Paulo, Palmeiras, Internacional, Botafogo, Bahia e o time de Lourdes foram eliminados na 2ª fase. Assim, o Campeonato Brasileiro prosseguiria sem eles nos próximos dois meses.

Para evitar a inatividade de 60 dias, os eliminados decidiram criar um torneio entre eles que recebeu o apoio da Federação Paulista para organizá-lo. Foi batizado de Heleno Nunes em homenagem ao ex-presidente da Confederação Brasileira do Desporto-CBD, que havia falecido em março daquele ano. Era o prenúncio de que o Torneio seria uma merda. O almirante Heleno foi colocado na presidência da CBD pela ditadura militar, entre 1975 e 1980. Foi um péssimo dirigente e um dos responsáveis pela esculhambação do futebol brasileiro, que levou os clubes a uma grave crise financeira.

O Barrados no Baile foi disputado em turno único. Começou em 15 de abril com a vitória do Cruzeiro sobre o time de Lourdes (4 a 2) diante de 6 mil pessoas, no Mineirão. O desinteresse dos torcedores seria a tônica do torneio. A média foi de 3.800 por jogo. Três deles tiveram menos de mil pagantes (Lourdes x Sport, Botafogo x Guarani e Guarani x São Paulo). A rodada dupla no Mineirão envolvendo Cruzeiro x Guarani e Atletico x Internacional teve apenas 8.400 pagantes.

O torneio se encerraria de forma melancólica. Na penúltima rodada, o Cruzeiro foi a Salvador enfrentar o Bahia e foi melhor em campo, mas o árbitro Paulo César Bandeira, de forma tendenciosa, tirou a vitória estrelada ao inventar dois pênaltis para os baianos no último minuto de jogo. O primeiro foi convertido no gol de empate, mas o último não foi cobrado. O time cruzeirense, orientado pelo treinador Oswaldo Brandão, se colocou na linha do gol. O barraco resultou na expulsão de 8 atletas estrelados e o jogo foi encerrado.

Era o reflexo do clima no futebol brasileiro no início daquela década, após a descoberta da "Máfia da Loteria Esportiva". Durante a disputa do "Barrados no Baile", a Policia Federal ainda colhia depoimentos de empresários, dirigentes e atletas envolvidos no esquema de manipulação de resultados dos jogos. A investigação já se arrastava por dois anos e despertava o descrédito dos torcedores, quanto à prisão dos investigados.


Dois jogos do Torneio não foram disputados por falta de interesse das equipes: Palmeiras e Santa Cruz e Palmeiras e Cruzeiro. O título ficou com o Internacional e o Cruzeiro terminou a disputa na 4ª colocação com um jogo a menos. Sem taça, sem importância, sem nada, o torneio é lembrado como um dos maiores fiascos do futebol brasileiro.
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