quinta-feira, 23 de março de 2017

O fim do assistente de cronometragem no futebol

Somente a partir de 1941 é que os árbitros foram obrigados a usar relógios e controlarem o tempo regulamentar dos jogos.

Carlos Henrique

Até o ano de 1941, o tempo regulamentar dos jogos de futebol no Brasil eram controlados por um assistente que ficava à beira do campo. Este auxiliar chamado de cronometrista era quem determinava o período de descontos de um jogo e o fim do tempo regulamentar. Esta função foi extinta após a publicação do decreto-lei 3.199 assinado pelo presidente da república Getúlio Vargas, que estabelecia as bases de organização dos desportos em todo o país. O documento determinou que fossem cumpridas as leis que regem o futebol. Conforme o artigo 43, do Capítulo VIII, “cada confederação adotará o código de regras desportivas de entidade internacional a que estiver filiada, fá-lo-á observar rigorosamente pelas entidades nacionais que lhe estejam direta ou indiretamente vinculadas”. Assim, a Confederação Brasileira do Desporto-CBD, que era a entidade máxima do futebol e de outros esportes no país, tornou obrigatória a adoção das regras da FIFA para o futebol no país. Dentre estas estavam o uso obrigatório do relógio de bolso para os árbitros, que passariam a controlar o tempo regulamentar do jogo.

Os cronometristas causaram muitas polêmicas no futebol. Uma delas aconteceu no Torneio Início de 1935, quando a intervenção deste auxiliar alterou o resultado de um jogo entre Cruzeiro e Atlético. Decidi reproduzir aqui, no blog, um dos textos que faziam parte de um livro que pretendia lançar sobre os clássicos. No entanto, com a evolução da internet acabei desistindo do projeto. Livros dão muito trabalho, geram custos e pouco retorno.

O RELÓGIO É QUEM MANDA!

O Torneio Início foi uma das competições mais interessantes do nosso futebol. Era disputado num único dia e a sua maior característica era o tempo: as partidas tinham a duração de 20 minutos, com exceção da final que era disputada em meia hora. Outra curiosidade era o critério de desempate que apontava o vencedor pelo maior número de escanteios conquistados. A competição perdeu o interesse ao longo dos anos e acabou extinta, mas foi neste Torneio que ocorreu um dos finais mais surpreendentes da história do clássico entre Cruzeiro e Atlético.

O Torneio de 1935 foi disputado no dia 17 de março, no estádio atleticano que, naqueles tempos, ficava na Barroca (ainda não existia o bairro de Lourdes) e reuniu América, Atlético, Cruzeiro, Retiro, Siderúrgica e Villa Nova. A Associação Mineira de Futebol-AMF (um dos antigos nomes da Federação Mineira) resolveu inovar e promoveu a escalação de dois árbitros na direção dos jogos. Cada um cuidava da metade do campo. A análise da experiência, feita pelo jornal “Estado de Minas”, na edição do dia 19 de março, merece ser transcrita: “Em favor, porque priva-os de correr de uma extremidade a outra do campo, e em desfavor porque são dois supplicantes a serem empasteliados quando dos sururus. Praticamente, o caso dos juízes não fica resolvido com a dupla arbitragem. Isto porque é mais fácil conseguir-se um bom juiz do que dois bons juízes.”

Atlético e Cruzeiro se enfrentaram na semifinal daquele torneio. No início do segundo tempo, o Atlético conquistou um escanteio ao seu favor. O time alvinegro, então, abdicou do ataque e passou a administrar a vantagem que lhe daria a classificação para a decisão. Como o tempo era a maior característica do torneio início, o Cruzeiro iniciou uma verdadeira corrida contra o relógio procurando o gol a qualquer custo. No último lance do jogo, o árbitro apontou uma mão na bola do zagueiro Perácio próximo à área. O ponta-esquerda Alcides cobrou a falta e Orlando Fantoni completou “de primeira” para o fundo das redes. Era o gol da vitória e da classificação.

No entanto, um personagem, que sequer aparecia nas fichas técnicas dos jogos, mudou o resultado daquele clássico. Naqueles tempos havia um assistente, que ficava na mesa ao lado do campo, com um relógio. Era chamado de cronometrista e ele controlava o tempo dos jogos com total autonomia. Alegando que o tempo havia se esgotado antes do chute de Orlando, ele anulou o gol do Cruzeiro e, consequentemente, deu a classificação ao Atlético.

A decisão revoltou os cruzeirenses. O Torneio Início ficou interrompido por mais de 20 minutos por conta das reclamações dos cruzeirenses. O cronometrista, que não teve o nome divulgado pelos jornais, se defendia das acusações de “tendencioso” alegando ter dado dois minutos de desconto pelas interrupções durante o jogo. Uma delas foi o atendimento do goleiro Clóvis, que deixou o campo para a entrada de Kafunga. No entanto, foi impiedoso ao não dar um mísero segundo para a conclusão do gol do Cruzeiro.

Os dois árbitros, que, presumidamente, poderiam significar autoridade em dobro, ficaram impotentes diante do poder do cronometrista em reverter o resultado do jogo. Uma prova de que, em todos os aspectos, era o relógio quem mandava nos jogos do Torneio Início.

Ficha técnica do jogo de 20 minutos:
Árbitros: Sátiro Taboada e José Avelino.
Cruzeiro: Geraldo, Raul, Chiquinho, Souza, Caieira, Mundico, Tavinho, Orlando, Zezé, Bengala e Alcide. Técnico: Matturio Fabbi.
Atlético: Clóvis, Perácio, Evando, Jacir, Lola, Menezes, Lelo, Bazzoni, Paulista, Nicola (Kafunga) e Elair. Técnico: Floriano Peixoto.
*apenas a substituição do goleiro era permitida no Torneio. O goleiro Clóvis contundiu-se, no início do jogo, e Nicola teve que ser substituído pelo goleiro reserva Kafunga. Com isso, o Atlético atuou com 10 jogadores.
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