sexta-feira, 24 de março de 2017

TÚLIO

Carlos Henrique

Túlio Humberto Pereira Costa (Goiânia, GO, 02/06/1969). O atacante Túlio foi anunciado, em 16 de abril de 1997, como reforço de peso para a disputa da segunda fase da Taça Libertadores. O jogador era um recordista nacional. Foi três vezes artilheiro do Campeonato Brasileiro: pelo Goiás, em 1989, e pelo Botafogo, em 1994 e 1995. Apenas Pelé e Dario haviam conseguido a proeza. No entanto, aquela contratação terminou de forma traumática. O Cruzeiro havia acertado a compra da metade dos direitos de Túlio, por R$2,5 milhões, junto ao Banco Excell. O jogador, que estava no Corinthians, não concordou com a negociação. Alegou não ter sido consultado sobre a transferência. "Há dirigentes que pensam que o jogador de futebol é mercadoria. Eu tenho currículo, tenho moral e não aceito isso", esbravejou. O presidente Zezé Perrella acusou o diretor de futebol do Corinthians, José Mansur Farhat, de ter influenciado Túlio a recusar o negócio.

Após o Banco Excell ter sido vendido ao Bilbao Vizcaya, os direitos de Túlio foram repassados aos espanhóis, que não tinham interesse em investir no futebol. Assim, dois anos depois, o atacante deixou o Fluminense e se transferiu para o Cruzeiro. Túlio desembarcou no Aeroporto da Pampulha, em 17 de maio de 1999, vestindo paletó azul sobre uma camisa branca. "Chego com o espírito cruzeirense encarnado", avisou. O jogador contabilizava 496 gols na carreira e garantiu que faria o 500 no Cruzeiro: "cem para cada estrela do escudo", brincou. Ao contrário de 1997, Túlio custou apenas R$ 53 mil pelo empréstimo até o final do ano com o passe fixado em R$ 3 milhões. O valor foi considerado uma pechincha pelo presidente Zezé Perrella.

O atacante veio solucionar a escassez de gols no Estadual: o time havia feito 9 em 7 jogos. Sua estreia foi, no Mineirão, contra o Villa Nova, em dia 29 de maio. E foi em grande estilo! Marcou os dois gols do empate em 2 a 2. No entanto, após o segundo gol, o titular Marcelo Ramos foi sacado do time para a entrada de Alex Alves. O jogador, que não atravessava uma boa fase, saiu de campo inconformado. Tirou a camisa, jogou-a próximo ao banco de reservas e avisou ao treinador que não jogaria mais no clube. Sinal que a contratação de Túlio incomodou os companheiros.

Contra o Valério, em 3 de junho, e contra a Caldense, em 6 de junho, foi a vez de Túlio ser substituído no decorrer do jogo, pelo garoto Geovanni e por Alex Alves. A bronca de Marcelo Ramos surtiu efeito. O jogador não foi mais substituído. Túlio sequer usava a tradicional camisa 7 que o acompanhou em sua carreira. Muller não abriu mão do número e restou a ele jogar com a 11. "Dependendo da necessidade, a equipe precisa mais desse ou daquele jogador. E com a quantidade de feras que temos aqui, quem entra não deixa o nível cair", comentou sobre as suas substituições em tom diplomático.

Contra a Caldense, Túlio marcou o primeiro gol da vitória por 3 a 0. Assim, prometeu marcar o gol 500 contra o Democrata, em 10 de junho. E a promessa durou 20 minutos. Marcou o primeiro da goleada por 4 a 1, em Governador Valadares. Na comemoração exibiu a faixa: Túlio 500 gols, Brasil 500 anos. "É uma homenagem ao nosso país, que, assim como eu, completará uma marca histórica", brincou. O Brasil comemorava naquele ano os 500 anos de seu descobrimento.

A gota d'água de sua relação com o treinador Levir Culpi veio na última rodada do Estadual contra o Galo. O Cruzeiro precisava apenas de um empate para se classificar para a final, ao contrário do alvinegro, que só interessava a vitória. Cauteloso, Levir optou em mudar o esquema e reforçou o meio-de-campo. Promoveu a entrada do volante Ricardinho e sacou Túlio da equipe titular. O time não criou nenhuma chance e ainda sofreu um gol, no minuto final, do primeiro tempo. No início da segunda etapa, teve o volante Donizete expulso. No desespero, Levir lançou o time ao ataque e colocou Túlio na vaga de Paulo Isidoro, aos 25, do segundo tempo. Mas a bola chegou apenas uma vez ao atacante. O castigo veio com um gol de pênalti no final. A derrota por 2 a 0 tirou a equipe da decisão, já que o América havia vencido o Villa Nova, em Nova Lima, e ultrapassou o Cruzeiro na tabela. Foi o primeiro estadual, da era Mineirão, que o Cruzeiro ficou de fora de uma decisão.

No dia seguinte, Túlio declarou o desejo de deixar o clube. Não concordava com a reserva. "Com este treinador não jogo mais", reclamou. No dia 17 de julho, fez seu último jogo com a camisa cruzeirense, na derrota por 2 a 0, para o Internacional, em Ipatinga. Túlio entrou no segundo tempo do amistoso na vaga de Muller. Ao todo foram 7 jogos com a camisa cruzeirense e 4 gols. O jogador deixou de comparecer aos treinos e, em 18 de setembro, comprou o seu passe junto ao Banco, sem revelar os valores. No entanto, o Cruzeiro só concordava com a sua liberação mediante uma indenização de R$ 400 mil. Após entendimentos com a diretoria, voltou a ser relacionado, para o banco de reservas, no segundo jogo da decisão da Recopa Sul-americana contra o River Plate, em Buenos Aires. Não entrou em campo, mas conquistou o título mesmo assim, com a vitória cruzeirense por 3 a 0. No dia 3 de novembro de 1999 acertou a sua transferência para o Vila Nova-GO para a disputa dos play-offs finais da Série B do Campeonato Brasileiro.

Túlio estabeleceria outras marcas, como ser artilheiro de todas as séries do Campeonato Brasileiro. Em 2008, pelo Vila Nova, foi o goleador máximo da Série B; e por duas vezes foi o artilheiro da Série C, em 2002, pelo Brasiliense, e em 2007, pelo Vila Nova. Com o passe na mão tornou-se o maior andarilho do futebol brasileiro e somou 36 clubes em sua carreira. Em sua passagem pelo Araxá, em 2014, garantiu que o gol marcado, em 8 de fevereiro, em cobrança de pênalti, contra o Mamoré, no estádio Fausto Alvim, foi o milésimo de sua carreira. O jogo foi pela segundona do estadual mineiro.

O Cruzeiro faz parte de duas marcas do artilheiro Túlio: o gol 500 de sua carreira e o recorde de clubes em que atuou.

A primeira passagem de Túlio em cada um dos 36 clubes que jogou:
1o Goias 1988 13o Atlético-GO 2003 25o Botafogo-DF 2009
2o Sion/SUI 1992 14o Tupy-ES 2003 26o Potyguar-RN 2010
3o Botafogo 1994 15o Wilsterman/BOL 2004 27o Barras 2011
4o Corinthians 1997 16o Anapolina 2004 28o América-RJ 2011
5o Vitória 1997 17o Volta Redonda 2004 29o Bonsucesso-RJ 2011
6o Fluminense 1999 18o Juventude 2005 30o CSE-AL 2012
7o Cruzeiro 1999 19o Al Shabab/EMI 2006 31o Laranjal 2012
8o Vila Nova 1999 20o Fast-AM 2006 32o Tanabi-SP 2012
9o São Caetano 2000 21o Canedense-GO 2006 33o Vilavelhense 2013
10o Santa Cruz 2001 22o Itauçuense-GO 2006 34o Araxá 2014
11o Ujpest/HUN 2002 23o Itumbiara-GO 2009 35o Aparecida-GO 2015
12o Brasiliense 2002 24o Goiânia 2009 36o Taboão da Serra 2016

*Série jogadores recordistas que atuaram pelo Cruzeiro
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