sexta-feira, 14 de abril de 2017

Em 1931 o América levou de 8 do Cruzeiro e tentou dar golpe na Liga Mineira

O atacante Niginho só parou de fazer gols no América, no clássico de 1931, porque o árbitro apitou o fim do jogo.

Carlos Henrique

Nunca um choro por uma derrota foi tão longe como aquele do América, após ter sido goleado por 8 a 1 para o Cruzeiro, no Campeonato de 1931. O atacante Niginho, o menino metralha, esteve impossível e mandou quatro bolas nas redes do América. A goleada tirou o Coelho da liderança isolada e os americanos, inconformados, lideraram, no dia seguinte, um golpe militar, apoiado por civis, para depor o presidente da Liga Mineira, Aníbal de Matos.

O América liderou, de forma invicta, parte do Campeonato de 1931. Venceu os clássicos, disparou na ponta da tabela e colocou três pontos de vantagem sobre os vice-líderes. No entanto, os campeonatos de pontos corridos são cruéis com os líderes que costumam perder o folego na reta final. Em seu primeiro clássico, pelo returno, em 6 de setembro, o América perdeu o selinho para o Villa Nova. A derrota por 2 a 1 queimou as gordurinhas do Coelho na tabela. Até que o Cruzeiro, em 27 de setembro, desmascarou o falso líder com uma goleada impiedosa por 8 a 1, no Barro Preto. O atacante Niginho, que havia sido lançado do time júnior, marcou quatro gols e começou a escrever a sua história de maior artilheiro da história deste clássico.

A goleada embolou a tabela. Com o empate em 3 a 3, entre Atlético e Villa Nova, na mesma rodada, em Nova Lima, o Galo alcançou o América na tabela. No entanto, os vilanovenses também choraram o gol do empate marcado pelo Galo. Alegaram uma irregularidade no lance. A vitória deixaria o Villa na liderança com o América. O Cruzeiro apenas diminuiu sua desvantagem de seis para quatro pontos para os líderes.

No dia seguinte, o major Otacílio Negrão de Lima - dirigente do América - acompanhado por outras patentes militares, do presidente americano, Clóvis de Magalhães Pinto e conselheiros do clube, invadiu a sede da Liga Mineira. O grupo depôs o presidente da Liga, Aníbal de Matos (que não se encontrava), justificando que a entidade estava “acéfala”. Otacílio foi “empossado” na presidência e despachou telegramas para a Confederação Brasileira do Desporto-CBD comunicando as mudanças na diretoria. A polícia foi chamada e, horas depois, os golpistas deixaram a sede.

Otacílio alegou que a medida nada tinha a ver com a surra sofrida para o Cruzeiro, mas com as suspensões impostas a dois titulares: o zagueiro Tonico (dois jogos) e o centromédio Humberto (três jogos), que considerou injustas. Ambos não atuaram contra o Cruzeiro. Também citou algumas medidas intempestivas do presidente do Atlético, que exercia, simultaneamente, a presidência da Liga Mineira – fato comum naquela época. Por fim, exigiu a renúncia de toda a diretoria da Liga. Argumentos pífios que tentavam encobrir a goleada sofrida para o Cruzeiro e a derrocada do líder.

Durante a semana, o Villa Nova engrossou o coro e também pediu a renúncia de toda a diretoria da Liga. Pretendiam parar o campeonato e se recusaram a entrar em campo nos jogos seguintes. Nunca o mi-mi-mi foi tão longe. No dia 4 de novembro, todos os 29 participantes do assalto a Liga, dentre eles, várias patentes militares como major, tenente-coronel, capitão, tenente, foram excluídos da Liga Mineira. Seguindo o que estava descrito nos estatutos, a Liga excluiu Villa e América do Campeonato e seus jogos foram anulados e transformados em amistosos. E o Campeonato de 1931 prosseguiu sem a presença deles.

CRUZEIRO 8 x 1 AMÉRICA
27/09/1931 – Barro Preto
Árbitro: Alberto Natali
Gols: Bengala 3’; Niginho 14’; Niginho 17’; Marcelo 20’; Alcides 45’; Alcides 50’; Niginho 58’; Niginho 64’; Piorra 70’
Cruzeiro: Catalano, Nereu e Gil; Maeco, Barros e Calixto; Piorra, Niginho, Carazo, Bengala e Alcides. T: Matturio Fabbi
América: Nelson, Tayan e Pedercine; Ralfo, Paim e Virgílio; Luizinho, Plínio, Sócrates, Lelo e Marcelo. T: Américo Pastor
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