sexta-feira, 12 de maio de 2017

Em 1977 o presidente da Federação Mineira era processado por corrupção

O amistoso de 1974, entre o Cruzeiro do goleiro Vitor e o Benfica do atacante Eusébio, em Los Angeles, nos Estados Unidos, serviu de pretexto para o presidente da Federação Mineira e conselheiro do Galo, Coronel Guilherme, embolsar dólares de forma ilícita para acompanhar o time estrelado na viagem.

Carlos Henrique

Em 23 de novembro de 1977 o juiz da 2ª vara criminal de Belo Horizonte, Júlio Luís de Lucena Pereira, ordena a abertura de processo contra o presidente da Federação Mineira de Futebol-FMF, o coronel reformado da polícia militar, José Guilherme Ferreira. Ele julga procedente as acusações do promotor Mário Rodrigues de que o dirigente se apropriou indevidamente de recursos da FMF, adulterou e desviou valores das rendas de jogos, além de ter solicitado contribuições para viagens cujas despesas correram por conta dos clubes e da CBD. O promotor pediu uma intervenção do Conselho Nacional do Desporto na Federação. Os abusos do dirigente se tornaram tão evidentes que, em 24 de abril de 1976, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais havia submetido toda a contabilidade da Federação a uma investigação.

Mineiro de Manhuaçu, José Guilherme Ferreira, 58 anos, coronel da polícia militar, estava há 11 anos a frente da FMF e era conselheiro do Galo desde 1966. Foi chefe da Casa Militar do governador Magalhães Pinto e participou ativamente do golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart. Em reconhecimento à ajuda que dele obteve para conseguir a verba para a conclusão do Mineirão, o engenheiro Gil César Moreira de Abreu indicou o coronel para a presidência da FMF.

A principal testemunha de acusação era o major Dirceu Gonçalves da Silva, ex-contador da FMF. Em 1972 o major se negou a assinar o balanço financeiro anual "por ter sido feito sob a orientação do coronel e de alguns integrantes do conselho fiscal, em completo desacordo com a realidade dos fatos". Os cinco membros do conselho fiscal - Aurélio Costa Neto, José Henrique Maia, Pedro Atílio Cardinale, Joaquim Gramiscelli e Alcides Romualdo da Silva - também foram denunciados por conivência e omissão. O presidente da FMF foi incurso no artigo 168 do código penal sujeito a uma pena de quatro anos de prisão.

Na excursão do Cruzeiro aos Estados Unidos em 1974, o dirigente, apesar de ter viajado às custas do clube estrelado, como convidado, solicitou uma ajuda de US$ 1,2 mil dólares aos cofres da FMF. A lista de irregularidades a frente da entidade era longa. O promotor revelou que, em 1969, por ocasião da substituição do tesoureiro João Batista Brandão por Paulo Alves de Assis, a Federação apontou um saldo de Cr$ 1,92 milhão, quando, na verdade, tinha Cr$ 259.286,82 em caixa; adulterou o borderô da renda do jogo entre Brasil e Venezuela, em 3 de agosto de 1975, no Mineirão; omitiu uma promissória de Cr$ 15 mil emitida pela Federação Baiana em favor da FMF no borderô dos jogos de um torneio interestadual em 1969; viajou ao Paraguai, em 1971, em avião fretado, e apresentou uma conta de Cr$ 33 mil mais tarde reduzida para Cr$ 11 mil; durante o Mundial de 1974 pediu auxílio de US$ 1,2 mil para viajar à Alemanha, apesar de todas as suas despesas terem corrido por conta da CBD.
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